Questões de Língua Portuguesa · Pró-Reitoria GP CP2

Língua PortuguesaTempos verbais do indicativoPró-Reitoria GP CP2 2017

CP II

Questão de Língua Portuguesa

BONECA 1 Nenhuma! Cansou de tanto andar. Perguntara muito. Ouvira respostas de todo tipo. Algumas vezes, 2 reagira à escassa delicadeza de certos balconistas e mesmo às ironias finas. Em outros momentos fora levado 3 à autocomiseração, depois de ouvir, por exemplo: 4 Sinto muito!... 5 Ou: 6 Queira nos desculpar... A fábrica não fornece, sabe... 7 Desanimar? Não. Não havia por que desistir de encontrar o presente de Natal para a filha. Com os 8 seus 33 anos, estava em plena forma física. Além disso, era como se a pequena o conduzisse pelas ruas do 9 centro comercial. Continuar a procura, mesmo pisoteando o cansaço, era uma missão. 10 Com entusiasmo, entrou na loja seguinte. Cheia! Aguardou pacientemente. Uma mocinha branca, de 11 ar meigo e aspecto subnutrido, indagou: 12 O senhor já foi atendido? 13 Não. Por gentileza, eu estou procurando uma boneca... 14 Temos várias. Olha aqui a Barbie, a Xuxinha... – e a loirinha foi apanhando diversas bonecas. 15 Colocava-as sobre o balcão, como se escolhesse para si. Olha que gracinha esta aqui de olhos azuis! É 16 novidade. Chegou ontem e já vendeu quase tudo. Chora, tem chupeta, faz pipi... E essa outra aqui? Não é uma 17 graça? – e levou ao colo a ruivinha de tom amarelado, bem clarinha. Mexeu-lhe os bracinhos e as perninhas e 18 indagou: Não gostou de nenhuma? 19 É que estou procurando uma boneca negra... 20 21 Meia hora de espera. ... 22 Tem sim! – o dono da loja dirigiu-se à empregada. Procura melhor, na prateleira de baixo, lá em cima 23 mesmo, perto da pia. 24 A moça subiu de novo a escada, depois de sorrir um submisso constrangimento. 25 Desceu mais uma vez, recebeu novas instruções e tornou a sorrir. Em seguida, do alto do mezanino, 26 mostrou o rostinho gorducho, marrom-escuro, de uma boneca. Radiante, a balconista empunhava-a como um 27 troféu. Assim desceu a escada. Mas, descuidando-se nos degraus, despencou-se. Todos se apavoraram. As 28 colegas de trabalho foram em socorro. 29 Nenhuma fratura. Apenas um susto. O patrão exasperou-se, mas logo conseguiu se controlar, 30 vermelho como pimenta-malagueta. A loja estava cheia. Foi atender o cliente: 31 Peço desculpa pela demora e pelo transtorno. Espero que o senhor não tenha se chateado. O 32 importante é que encontramos o produto. Está em falta, sabe... Eles não entregam. Eu mesmo encomendei a 33 semana passada. Mas o representante disse que a firma está exportando para a África. Está certo, mas aqui 34 também tem freguês que procura, não é? O senhor é brasileiro? 35 Sim. 36 Então... – o homem engoliu a frase e preparou a nota. 37 ... 38 Já na rua, o pai, entre tantos pensamentos, alguns desagradáveis, lembrou-se da descontração a que 39 fazia jus, depois de suar expectativas naquela manhã de dezembro. Respirou fundo. Contemplou o lindo 40 embrulho de motivações natalinas, em que se destacavam o Papai Noel, crianças louras e muita neve. Seguiu, 41 passos lentos, em direção a uma lanchonete. 42 Vai uma loura gelada aí, chefe? – pronunciou o balconista ao vê-lo sentar-se junto do balcão. 43 Sorriu, confirmando com um gesto de polegar. 44 Ao primeiro gole de cerveja, sentiu-se profundamente aliviado e feliz. 45 447 Cuti. Contos crespos. São Paulo: Mazza. 2012. 2ª ed. 1

No trecho: “Nenhuma! Cansou de tanto andar. Perguntara muito. Ouvira respostas de todo tipo. Algumas vezes, reagira à escassa delicadeza... (linhas 1-2)”, o tempo verbal em destaque foi utilizado pelo autor para indicar uma ação

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