Língua PortuguesaAntítese, paradoxo e oxímoroVunesp 2022
CM Matão
Questão de Língua Portuguesa
Entre as sugestões que vieram da editora sobre meu novo livro, havia a de trocar “índios” por “indígenas”. Sempre fui um defensor do politicamente correto, mas algumas mudanças na ética verbal me parecem contraproducentes. Em certo momento dos anos 90, “favela” virou “comunidade”. “Favelado” era um termo pejorativo e é compreensível que os moradores dessas áreas não quisessem ser chamados assim, mas mudar para “morador de comunidade”, embora amacie na semântica, não leva água encanada, esgoto e luz para ninguém. Pelo contrário. A gente ouve “comunidade” e dá a impressão de que aquelas pessoas estão todas de mãos dadas fazendo uma ciranda em torno da horta orgânica, quando na verdade estão se apinhando em condições sub-humanas, sem esgoto, a sfalto, educação, saúde. Algumas palavras têm que doer, porque a realidade dói; do contrário, a linguagem deixa de ser uma ferramenta que busca representar a vida como ela é e se torna um tapume nos impedindo de enxergá-la. Sobre “índios” e “indígenas”, li alguns textos. Os argumentos giram em torno do fato de “índio” ter se tornado um termo pejorativo, ligado aos preconceitos que os brancos sempre tiveram com os povos originários da América: preguiçosos, atrasados, primitivos. Só que o problema, pensei, não está no termo “índio”, mas no preconceito do branco. Como se a mudança na nomenclatura incorporasse o preconceito, quando deveria ser justamente o contrário. Eu estava errado. Fui salvo da ignorância por uma prima antropóloga e por um mestre, que me explicaram: “indígena” vem de “endógeno”, aquele que pertence a um lugar. Portanto, “povos indígenas” dão uma ideia da multiplicidade de etnias que aqui estavam; “índio” é uma generalização preconceituosa, como “paraíba” para se referir a qualquer nordestino ou nortista. (Antonio Prata. As palavras e as coisas. www1.folha.uol.com.br, 02.07.2022. Adaptado)
No trecho “Algumas palavras têm que doer, porque a r ealidade dói; do contrário, a linguagem deixa de ser uma ferramenta…” (4o parágrafo), o vocábulo e a expressão destacados podem ser substituídos, sem prejuízo do sentido e da correção gramatical, respectivamente por:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

