Língua PortuguesaAntítese, paradoxo e oxímoroNC-UFPR 2014
ITAIPU
Questão de Língua Portuguesa
Curto, logo existo Luís Antônio Giron 1 Com a evolução e o aumento de usuários e da importância das redes sociais, o nome e a fotografia de cada pessoa passaram 2 a funcionar como o substituto do sujeito. O “eu” real se esvaziou para dar lugar ao “perfil”. O filósofo francês René Descartes 3 estabeleceu um novo modelo de pensamento no século XVII, ao formular em latim a seguinte proposição: “Penso, logo existo” 4 (Cogito, ergo sum). Era uma forma de demonstrar que aquele que existe raciocina e, por conseguinte, põe em xeque o mundo que 5 o cerca. A dúvida científica substituía a certeza religiosa. Hoje, Descartes se reviraria no seu túmulo em Estocolmo, caso pudesse 6 observar o que se passa na cabeça dos seres humanos. “Curto, logo existo” (Amo, ergo sum) parece ser a nova atitude lógica 7 popularizada pelo Facebook. A dúvida científica cedeu espaço à presunção tecnológica. 8 Melhor ainda é a formulação da jornalista americana Nancy Jo Sales no livro Bling Ring – a gangue de Hollywood. A dúvida 9 sobre a existência do ego deu lugar, na cultura do ultraconsumismo e das celebridades, a um outro tipo de pergunta: “Se postei algo 10 no Facebook e ninguém ‘curtiu’, eu existo?”. 11 A resposta é: provavelmente não. Eu existo se meus tuítes não são comentados nem retuitados? Claro que não. E se são 12 curtidos ou retuitados, tampouco! Ninguém existe nas redes sociais senão como representações, que estão ali no lugar dos 13 indivíduos. Não há uma transparência ou uma continuidade natural entre o que somos de fato e o que queremos ser nas redes 14 sociais. Isso parece óbvio, mas não o é para muita gente. Agora as pessoas reais guardam uma alta concentração de nada nos 15 cérebros, pois preferem jogar tudo o que pensam e sentem via suas representações nas redes sociais. Elas se tornam ocas para 16 rechear de signos seus perfis. O verdadeiro eu migrou do mundo off-line para o online. 17 É óbvio que os signos na internet podem enganar, mentir e insidiosamente simular um alter ego digital. Os vigaristas e 18 falsários pululam alegremente com suas máscaras nas redes sociais. Quando alguém me “curte” ou “não curte”, está agindo com 19 sinceridade na mensagem ou quer agradar e parecer inteligente? Ou está ironizando? Nesse sentido, se o eu do Facebook quiser 20 se sentir mais vivo com o número de pessoas que o curtiram, estará caindo em uma armadilha. Pois ele não é o que é nem quem 21 curte é o que parece ser. Mesmo quando a boa-fé existe, ela deixa de o ser porque nada se mantém estável no ambiente da “curtição” 22 do Facebook. (Os robôs do Facebook geram mensagens aleatórias para que usuários vivos ou mortos “cutuquem” alguém que já 23 está morto, ou “curtam” perfis que já subiram aos céus). 24 (...) 25 O ato de “curtir” tem um poder ontológico: ele alterou irremediavelmente a nossa forma de encarar o mundo, os outros e a 26 nós mesmos. Pois o “curtir” é a manifestação mais aguda da insistência do ego na cadeia da lógica binária do Facebook. Se eu 27 “curto”, desejo afirmar minha existência, mas eu menos existo do que penso que possa existir. Se alguém me “curte”, posso adquirir 28 certeza de que estou no mundo e me encher de felicidade com o elogio, mas não há como verificar a veracidade dele e, assim, se 29 eu pensar demais nisso, mergulho na frustração e na sensação de vazio existencial. E se o mundo existe só porque todos se “curtem” 30 mutuamente, então ele virou um círculo vicioso de aprovações que o levarão inevitavelmente ao caos. O mundo, em suma, não 31 pode existir fora do moto perpétuo da troca infinita de elogios e aprovações. Quem curte não curte algo, mas curte o próprio ato de 32 curtir. Esse mundo paralelo peculiar se destruiria se houvesse contradições, confrontos e refutações. As redes sociais deram origem 33 a universos de consenso absoluto. De minha parte, não curto, logo desisto. (Adaptado de Revista Época, 01/08/13, Ed. Globo. Disponível em: http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/luis-antonio-giron/noticia/2013/08/bcurtoblogo-existo.html). Acesso em 27 de fevereiro de 2014.
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Um dos sentidos de paradoxo, registrado no dicionário Houaiss, é “pensamento, proposição ou argumento que contraria os princípios básicos e gerais que costumam orientar o pensamento humano, ou desafia a opinião consabida, a crença ordinária e compartilhada pela maioria”. A partir desse conceito, assinale a alternativa em que se encontra um paradoxo.
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.


