Língua PortuguesaAspas, travessão e parêntesesInstituto ACCESS 2023
SAS Barbacena
Questão de Língua Portuguesa
Nesta Páscoa, celebre a droga leve que a natureza pôs no cacau Ovos de Páscoa guardam muito mais camadas do que as de chocolate aderidas a uma forma. Quem come o doce, neste domingo de alegria ressuscitada, nem imagina quanta história e quanta química cabe dentro desse signo 5 ancestral de fertilidade gourmetizado para o paladar contemporâneo. Ovos de Páscoa já existiam na Europa bem antes de ali chegar o chocolate. Ovos de galinha eram presenteados para encerrar o jejum da Quaresma, ou pintados com a cor do 10 sangue de Cristo para lembrar sua paixão (sofrimento). Como receptáculos de vida nova, os ovos simbolizam a ressurreição. Ou então, uma vez drenados de conteúdo e decorados, o sepulcro vazio do Messias renascido. A simbologia é pródiga, renovada a cada geração que 15 comemora a festa em família. A incorporação do cacau constitui ainda uma marca daquele que foi talvez o maior encontro de civilizações da história, entre Velho e Novo Mundo. (Sim, foi também, e principalmente, um choque de civilizações, com proporções 20 genocidas sob o tacão colonizador, mas o dia hoje não é para verdades amargas.) Amargo, de toda forma, era o sabor da bebida preparada com o pó das drágeas da árvore Theobroma cacao por povos originários do México e outras partes da América. 25 Na Europa, acabou misturado com açúcar e leite, alquimia que o transmutou na delícia do chocolate, como bebida ou sólido. O primeiro nome científico da planta, que em latim quer dizer algo como alimento dos deuses ou manjar divino, 30 poderia sugerir algum elo com a religião cristã e a Páscoa, só que não. É apenas uma celebração de seu sabor celestial. Do mesmo gênero é o cupuaçu (Theobroma grandiflorum). Ambas as iguarias cabem bem na classe dos aptônimos, como diria o confrade Claudio Angelo, na qual o 35 nome da coisa ou da pessoa combina à perfeição com seu traço mais saliente – como Marília Marreco, secretária de Meio Ambiente e Proteção Animal do DF. Do nome feliz se batizou o principal alcaloide do cacau, a teobromina. Trata-se de uma xantina, estimulante 40 próximo da cafeína. Embora com efeito menos pronunciado sobre o cérebro que o café, persiste a lenda de que o chocolate pode também estimular a cognição. Já entre os povos originários da América se atribuíam ao cacau vários benefícios para a saúde, até mesmo 45 afrodisíacos (outra associação com fertilidade e reprodução, mas que não combina muito com a Páscoa em família). Certo é que chocolate baixa a pressão sanguínea e acelera os batimentos cardíacos. Mais duvidosa é a crença de que chocolate cause 50 dependência, ou pelo menos que o responsável por tornar as pessoas chocólatras seja a teobromina, prima da cafeína. O alcaloide típico do cacau tem mais dificuldade que o do café para ultrapassar a barreira hematoencefálica e chegar ao cérebro, sugerindo que a culpa recaia mais sobre o açúcar e a 55 gordura das barrinhas viciantes. Embora sem propriedade psicoativa destacada, ingere-se o cacau – amargo, preparado só com água, eventualmente com especiarias – como sacramento em cerimônias de povos indígenas do México, por exemplo. É 60 considerado uma planta sagrada, como os potentes tabaco (nicotina) e peiote (cacto com o psicodélico mescalina). Melhor parar por aqui, pois a conversa que começou com ovos de Páscoa já caminha para soar pecaminosa a ouvidos cristãos. Celebrem-na com os seus e 65 com chocolate, ou qualquer outro alimento. Divino, de verdade, é poder sentar-se à mesa e compartilhar as dádivas da natureza. (Marcelo Leite. https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marceloleite/2023/04/nesta-pascoacelebre-a-droga-leve-que-a-natureza-pos-no-cacau.shtml.)
A palavra “sofrimento” (L.10) está entre parênteses porque
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

