Questões de Língua Portuguesa · IMPARH

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Questão de Língua Portuguesa

O primeiro beijo 01 Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco, iniciara-se o namoro e ambos andavam 02 tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme. 03 – Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso, mas me diga a verdade, só a 04 verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar? 05 [...] 06 O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, 07 deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os 08 de uma mãe. Ficar, às vezes, quieto, sem quase pensar, e apenas sentir era tão bom. A concentração no sentir 09 era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros. E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem 10 alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir (puxa vida!) como deixava a garganta seca. E 11 nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente, engolia-a 12 lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme, maior 13 do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo. 14 A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio-dia, tornara-se quente e árida e, ao penetrar pelo nariz, 15 secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava. E se fechasse as narinas e respirasse um pouco 16 menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes, mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, 17 esperar. Talvez minutos apenas, talvez horas, enquanto sua sede era de anos. 18 [...] 19 O ônibus parou, todos estavam com sede, mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de 20 pedra, antes de todos. 21 De olhos fechados, entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O 22 primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga. Era a vida voltando, e com esta encharcou 23 todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos. Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois 24 olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. 25 Lembrou-se de que realmente, ao primeiro gole, sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água. 26 E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa 27 boca, de uma boca para outra. 28 Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido 29 vivificador, o líquido germinador de vida... Olhou a estátua nua. Ele a havia beijado. Sofreu um tremor que não 30 se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. 31 Deu um passo para trás ou para a frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma 32 parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha 33 acontecido. Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, 34 espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com 35 sobressalto. 36 Perplexo, num equilíbrio frágil. Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele 37 a verdade, que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele... 38 Ele se tornara homem. LISPECTOR, Clarice. In: https://residenciapedagogica.ufpa.br/images/Ebooks/2mb/FELICIDADE_CLANDESTINA.pdf. Acesso em 14 dez. 2025.

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