Língua PortuguesaPolifonia e citação de vozes no textoFADESP 2018
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Questão de Língua Portuguesa
1 A dualidade fundamental da linguagem que nasce da oposição saussureana língua/fala 2 foi (...) duramente contestada pelo soviético Bakhtin, já no final da década de 20. A oposição 3 que Bakhtin (1929) faz a Saussure é radical, se levarmos em conta que a linguagem, para esse 4 filósofo, não se divide em duas instâncias, língua e fala, ou língua e discurso, ou ainda 5 competência e performance. A enunciação, “a verdadeira substância da língua”, é, para Bakhtin, 6 a síntese do processo da linguagem, o conceito-chave para se entender os processos 7 linguísticos. 8 Assim como Saussure, Bakhtin parte do princípio de que a língua é um fato social cuja 9 existência funda-se nas necessidades de comunicação. No entanto, afasta-se de Saussure ao 10 ver a língua como algo concreto, fruto da manifestação interindividual entre os falantes, 11 valorizando, assim, a manifestação concreta da língua e não o sistema abstrato de formas. Essa 12 manifestação não é a fala de Saussure, porque é eminentemente social. 13 Para Bakhtin, o que de fato existe é o processo linguístico, sendo a enunciação o motor 14 da língua: “a língua vive e evolui historicamente na comunicação verbal concreta, não no 15 sistema linguístico abstrato das formas da língua nem no psiquismo individual dos falantes”. A 16 língua constitui um processo de evolução ininterrupto, ou seja, um processo de criação contínua 17 que se realiza pela interação verbal social dos locutores. Em outras palavras, a língua é uma 18 atividade, um processo criativo, que se materializa pelas enunciações. A realidade essencial da 19 linguagem é seu caráter dialógico. 20 Sendo a realidade essencial da linguagem seu caráter dialógico, a categoria básica da 21 concepção de linguagem em Bakhtin é a interação. Toda enunciação é um diálogo; faz parte de 22 um processo de comunicação ininterrupto. Não há enunciado isolado; todo enunciado 23 pressupõe aqueles que o antecederam e todos os que o sucederão. Um enunciado é apenas 24 um elo de uma cadeia. Toda palavra, nesse sentido, já é uma contrapalavra, uma resposta. 25 O dialogismo, que é, para Bakhtin, a condição de existência do discurso, é duplo: ao 26 mesmo tempo que é lei do discurso constituir-se sempre de “já ditos” de outros discursos (as 27 palavras são sempre, inevitavelmente, “palavras de outrem”), o discurso não existe 28 independentemente daquele a quem é endereçado, o que implica que a visão do destinatário é 29 incorporada e determinante no processo de produção do discurso. 30 O conceito de interação é constitutivo dos sujeitos e da própria linguagem. A palavra é 31 ideológica, ou seja, a enunciação é ideológica. É no fluxo da interação verbal que a palavra se 32 concretiza como signo ideológico, que se transforma e ganha diferentes significados, de acordo 33 com o contexto em que ela surge. Cada época e cada grupo social têm seu repertório de formas 34 de discurso que funciona como um espelho que reflete e retrata o cotidiano. A palavra é a 35 revelação de um espaço no qual os valores fundamentais de uma dada sociedade se explicitam 36 e se confrontam. 37 Os estudos de Bakhtin no ocidente, principalmente a partir da década de 70, vão 38 influenciar as pesquisas atuais voltadas para a problemática da enunciação. Com base nessas 39 pesquisas, não é mais possível dizer que a enunciação é um ato individual de utilização da 40 língua por um locutor. Ela é eminentemente social. CARDOSO, Sílvia. Discurso e ensino. Belo Horizonte, Autêntica, 2003. p. 24-25.
Do trecho O dialogismo, que é, para Bakhtin, a condição de existência do discurso, é duplo: ao mesmo tempo que é lei do discurso constituir-se sempre de “já ditos” de outros discursos (as palavras são sempre, inevitavelmente, “palavras de outrem”), o discurso não existe independentemente daquele a quem é endereçado, o que implica que a visão do destinatário é incorporada e determinante no processo de produção do discurso. (linhas 25 a 29), é possível compreender que
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