Questões de Língua Portuguesa · CEV UECE

Língua PortuguesaIroniaCEV UECE 2014

UECE

Questão de Língua Portuguesa

Texto 2 O Verbo For Vestibular de verdade era no meu tempo. Já estou chegando, ou já cheguei, à altura da 51 vida em que tudo de bom era no meu tempo; meu e dos outros coroas. Acho inadmissível e 53 mesmo chocante (no sentido antigo) um coroa 54 não ser reacionário. Somos uma força histórica de grande valor. Se não agíssemos com o vigor 56 necessário — evidentemente o condizente com 57 a nossa condição provecta —, tudo sairia fora de controle, mais do que já está. O vestibular, 59 é claro, jamais voltará ao que era outrora e talvez até desapareça, mas julgo necessário falar do antigo às novas gerações e lembrá-lo 62 às minhas coevas (ao dicionário outra vez; 63 domingo, dia de exercício). O vestibular de Direito a que me submeti, na velha Faculdade de Direito da Bahia, tinha 66 só quatro matérias: português, latim, francês ou inglês e sociologia. Nada de cruzinhas, 68 múltipla escolha ou matérias que não 69 interessassem diretamente à carreira. Tudo escrito tão ruybarbosianamente quanto 71 possível, com citações decoradas, 72 preferivelmente. Havia provas escritas e orais. A escrita já 74 dava nervosismo, da oral muitos nunca se recuperaram inteiramente, pela vida afora. Tirava-se o ponto (sorteava-se o assunto) e 77 partia-se para o martírio, insuperável por 78 qualquer esporte radical desta juventude de hoje. O maior público das provas orais era o 81 que já tinha ouvido falar alguma coisa do candidato e vinha vê-lo "dar um show". Eu dei 83 show de português e inglês. O de português 84 até que foi moleza, em certo sentido. O professor José Lima, de pé e tomando um 86 cafezinho, me dirigiu as seguintes palavras 87 aladas: — Dou-lhe dez, se o senhor me disser 89 qual é o sujeito da primeira oração do Hino Nacional! — As margens plácidas — respondi 92 instantaneamente e o mestre quase deixa cair 93 a xícara. — Por que não é indeterminado, "ouviram, etc."? 96 — Porque o "as" de "as margens plácidas" não é craseado. Quem ouviu foram as margens 98 plácidas. É uma anástrofe, entre as muitas que 99 existem no hino. "Nem teme quem te adora a própria morte": sujeito: "quem te adora." Se 101 pusermos na ordem direta... 102 — Chega! — berrou ele. — Dez! Vá para a glória! A Bahia será sempre a Bahia! 104 Quis o irônico destino, uns anos mais tarde, que eu fosse professor da Escola de Administração da Universidade Federal da 107 Bahia e me designassem para a banca de 108 português, com prova oral e tudo. Eu tinha fama de professor carrasco, que até hoje considero injustíssima, e ficava muito 111 incomodado com aqueles rapazes e moças pálidos e trêmulos diante de mim. Uma bela 113 vez, chegou um sem o menor sinal de 114 nervosismo, muito elegante, paletó, gravata e abotoaduras vistosas. A prova oral era 116 bestíssima. Mandava-se o candidato(a) ler 117 umas dez linhas em voz alta (sim, porque alguns não sabiam ler) e depois se perguntava 119 o que queria dizer uma palavra trivial ou outra, qual era o plural de outra e assim por diante. Esse mal sabia ler, mas não perdia a pose. Não 122 acertou a responder nada. Então, eu, carrasco 123 fictício, peguei no texto uma frase em que a palavra "for" tanto podia ser do verbo "ser" quanto do verbo "ir". Pronto, pensei. Se ele 126 distinguir qual é o verbo, considero-o um gênio, dou quatro, ele passa e seja o que Deus 128 quiser. 129 — Esse "for" aí, que verbo é esse? Ele considerou a frase longamente, como 131 se eu estivesse pedindo que resolvesse a Página 4 132 quadratura do círculo, depois ajeitou as abotoaduras e me encarou sorridente. 134 — Verbo for. — Verbo o quê? — Verbo for. 137 — Conjugue aí o presente do indicativo 138 desse verbo. — Eu fonho, tu fões, ele fõe — recitou ele, impávido. — Nós fomos, vós fondes, eles 141 fõem. Não, dessa vez ele não passou. Mas, se 143 perseverou, deve ter acabado passando e hoje 144 há de estar num posto qualquer do Ministério da Administração ou na equipe econômica, ou 146 ainda aposentado como marajá, ou as três 147 coisas. Vestibular, no meu tempo, era muito mais divertido do que hoje e, nos dias que 149 correm, devidamente diplomado, ele deve estar fondo para quebrar. Fões tu? Com quase toda a certeza, não. Eu tampouco fonho. Mas 152 ele fõe. RIBEIRO, João Ubaldo. O Conselheiro Come. Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 2000. p. 20-23.

No texto há um tom de ironia que se revela em muitos trechos. Abaixo, você verá alguns excertos. Assinale a opção que traz uma expressão NÃO IRÔNICA.

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