Língua PortuguesaConectivos e relações de sentidoCOTEC FADENOR 2016
Pref Paracatu
Questão de Língua Portuguesa
APRENDENDO A DESAPRENDER Seu Félix trabalhava na fábrica havia 22 anos. Funcionário exemplar, nunca tinha faltado, o resultado da ilha de produção que ele gerenciava era sempre superior e, não menos importante, ele demonstrava que era feliz em seu trabalho. Sentia orgulho da profissão e da empresa onde tinha construído sua carreira. Um dia seu Félix e os demais supervisores foram convocados para uma reunião com o novo gerente de segurança, um engenheiro chamado Silas. Jovem, sorridente e usando o uniforme da empresa de maneira impecável, o engenheiro recebeu os colegas, que foram se acomodando nas cadeiras do auditório de treinamento. Com todos sentados, Silas começou a explicação: “Pessoal, nada de muito difícil. Só precisamos reforçar a preocupação com a segurança, por isso temos normas novas de comportamento aqui na fábrica”. E passou a demonstrar uma série de procedimentos, que incluíam o uso de óculos e protetores auriculares, rotinas de verificação de manutenção das máquinas e até caminhar pela empresa, que agora deveria ser por corredores pintados no chão. No fundo, o que deveria acontecer eram pequenas mudanças de comportamento, mas isso criaria uma nova cultura, um novo jeito de viver e de trabalhar. O que os trabalhadores entregariam no final do dia seria exatamente o mesmo: um determinado número de pares de calçados de plástico, só que a partir de novos procedimentos. Quando Silas perguntou se havia dúvidas, se ele tinha sido claro, seu Félix foi o primeiro a falar: “Eu já entendi o jeito novo de fazer. Eu só não sei ainda como não fazer do jeito velho”. Sem querer, seu Félix tocou em um dos pontos mais sensíveis da relação ensino-aprendizagem. O grande problema não é aprender coisas novas. É desaprender coisas velhas. Substituir conceitos, hábitos, crenças, certezas. Isso é que é difícil. Tudo o que aprendemos, um conhecimento, um conceito, uma nova competência ou mesmo um procedimento simples, depende de nosso repertório anterior. De certa forma, só aprendemos mesmo aquilo que já sabemos. Apenas criamos uma nova organização mental, através de uma série de insights e significados. É por isso que, quando um novo conhecimento contraria o que já tínhamos consagrado em nossa mente, apresentamos uma imensa resistência para aceitá-lo, quanto mais incorporá-lo. Seu Félix, por exemplo, era experiente, tinha mais de duas décadas na fábrica sem nenhum acidente que comprometesse sua saúde ou o resultado de seu trabalho. Para que, agora, essas novidades do engenheiro Silas? Para que mudar o que estava dando certo? Em um mundo atordoado com tantas novidades, com uma imensa quantidade de pesquisas, novas tecnologias e produtos, abordagens inéditas em todas as áreas do conhecimento e todas as profissões, a capacidade de desaprender passou a ser tão importante quanto a de aprender. E isso não significa esquecer, nem ignorar o conhecimento anterior. Até porque é justamente o velho que pode alavancar o entendimento do novo. Não estamos partindo do zero. O que necessitamos ter é uma qualidade que as crianças possuem de sobra: curiosidade. E precisamos nos livrar de outra que os pequenos não têm: preconceito. Crianças são naturalmente curiosas pelo simples motivo de que estão descobrindo um mundo até então desconhecido. Tudo é novidade. Infelizmente este mundo não está preparado para conviver com os curiosos, pois eles incomodam. Pais, professores, chefes, todos acabam, não por dolo, mas por absoluta incapacidade ou tempo para responder a tudo, inibindo a curiosidade infantil, que termina por atrofiar e encolher-se em um canto do cérebro, onde também mora a futilidade. Por isso, um curioso é, frequentemente, confundido com um leviano infantilizado. Mas, cuidado, não estou falando aqui da curiosidade de saber com quem está saindo aquela colega do escritório, por que perdeu o emprego o marido da vizinha, ou com quem ficará a mocinha na novela. A que interessa é a curiosidade intelectual. Ser curioso, nesse sentido, significa manter aberto o canal da aprendizagem. No mundo atual, superconectado e hiperinformado, esse canal será uberdemandado. E, sobre o preconceito, entenda-se que ele não é apenas a dificuldade em aceitar o diferente, mas também a resistência a aprender o novo. Um preconceito é um conceito prévio, anterior, que, por estar há mais tempo alojado em algum canto do cérebro da pessoa, vale-se desse usucapião para impedir a entrada de um novo inquilino. Não dá para imaginar um inimigo mais poderoso do aprendizado e da evolução do que o apego férreo a conceitos anteriores, por melhores que ele tenham sido até esse momento [...]. (MUSSAK, Eugênio. Aprendendo a desaprender. Revista Vida Simples. p. 52, maio de 2016. Adaptado.)
“Por isso, um curioso é, frequentemente, confundido com um leviano infantilizado.” (Linha 40) A conjunção “por isso” foi empregada no sentido de:
Mais questões de Conectivos e relações de sentido
- CMRJ 2027Considere o fragmento: “Infelizmente, não posso pregar. Eu também faço parte do clube que prefere o smartphone ao velho e bom cochilo.” (l. 11-12). Para que se estabeleça uma rela…
- CMRJ 2027Marque a alternativa que expressa relação inadequada entre o conectivo destacado e o valor semântico que ele denota.
- Instituto ACCESS 2026O texto articula informações científicas, regulatórias e institucionais de modo a garantir continuidade temática, evitando ambiguidades referenciais e assegurando a progressão lóg…
- Legalle 2026No texto, os minerais críticos são considerados recursos para a vrgorosa economia de um país. Mais adiante, af irma-se categoricamente que o Brasil e de quase todo o cobiçado niob…
- Vunesp 2026De acordo com Marcuschi (Produção textual, análise de gêneros e compreensão), os processos de coesão “dão conta da estruturação da sequência [superficial] do texto (seja por recur…
Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.


