Questões de Língua Portuguesa · Fundatec

Língua PortuguesaRegênciaFundatec

Município de Ivoti/RS Concurso Público

Questão de Língua Portuguesa

Execução: Fundatec 9 446_CE_09_NS_19/10/201717:03:11 Instrução: Responda às questões 26 a 40 utilizando o texto a seguir, quando for necessário. Os destaques ao longo do texto estão citados nas questões. Como temos falado de variação? 01 É possível olharmos para as línguas de diversas formas, a depender de como as 02 entendemos: podemos nos voltar apenas para estruturas mais abstratas e generalizantes; 03 podemos nos preocupar em ditar regras, posicionando-nos de forma mais segregacionista; 04 podemos ter como objetivo a descrição de usos linguísticos reais, relacionando as funções dos 05 elementos no discurso e as formas pelas quais são expressos. Em um contexto no qual se tem 06 privilegiado a descrição de usos, a variação linguística, já bastante contemplada dentro da 07 academia, vem constantemente recebendo mais destaque. 08 Mas de que maneira e sobre qual tipo de variação se tem falado? Já sabemos que, em 09 alguns lugares do Brasil, se diz “tangerina” e que, em outros, se prefere “mexerica”, ou, ainda, 10 “bergamota”. Também sabemos que tanto “mosquito”, quanto “muriçoca” e “carapanã” tendem 11 a ser usados em referência .......... inseto que muito nos perturba. A essa variação – já tão 12 discutida – chamamos de variação lexical: refere-se a uma mesma entidade do mundo por meio 13 de itens linguísticos distintos. 14 Outra variação bastante conhecida chama-se fonética: Compreende as diferentes 15 concretizações sonoras de unidades sonoras abstratas. Em termos menos técnicos, o –s em 16 “cadeiras” pode ser produzido como o primeiro elemento sonoro em “sapo” ou como o primeiro 17 em “xícara”, dentre algumas outras possibilidades de produção, contextualmente condicionadas. 18 De toda forma, sabemos que se refere a um –s e que se trata de mais de uma cadeira. 19 Há, também, variações morfossintáticas e sintáticas: estas se referem a como articulamos os 20 grupos de palavras presentes nos nossos textos (sejam orais ou escritos), e aquelas agrupam 21 formas distintas que surgem nos diferentes arranjos de palavras que compõem nossas frases. No 22 entanto, será que temos falado destas variações propriamente? 23 No nível morfossintático, não nos surpreenderíamos se ouvíssemos alguém dizer: 24 “Brasileiro adora falar ‘ver ela’, ‘jogar ele’, ‘amar ela’, ‘abraçar ele’”, atentando-se aos pronomes 25 ‘ela’ e ‘ele’ em posição de complemento verbal e não de sujeito. De fato, dizemos isso; mas essa 26 não é a única alternativa do falante. Pesquisas linguísticas sobre complementos verbais na função 27 de objeto direto de 3ª pessoa têm demonstrado que, em referência anafórica (ou seja, quando 28 nos referimos a entidades que podem ser recuperadas nos nossos textos), nós preferimos a 29 estratégia que se tem chamado de anáfora zero. Trata-se do não preenchimento da categoria 30 sintática, como se vê em (1): Minha mãe me pediu que comprasse pão, mas esqueci de trazer ø 31 do mercado. Podemos entender perfeitamente que não se trouxe “pão” do mercado, ainda que 32 “pão” não esteja materializado depois de “trazer”. Na verdade, dizer “esqueci de trazer ele(s) do 33 mercado” não seria esperado, devido à preferência por esse pronome em referência a seres 34 animados. 35 Menos esperado ainda seria dizer “esqueci de trazê-lo(s) do mercado”, visto que, na fala 36 brasileira, essa forma vem sendo cada vez menos usada e até pareceria pedante. Se fora da 37 academia já não damos muita atenção ... variação em nível morfossintático, menos ainda se fala 38 sobre variações sintáticas. Pensemos sobre a sentença abaixo: A ideia de que eu te falei mais 39 cedo ainda me parece boa. Trata-se de uma sentença possível? Certamente. Não é, contudo, a 40 que mais produzimos, principalmente considerando dados de fala, como demonstram pesquisas 41 linguísticas. A sentença em (3), por outro lado, já seria mais facilmente observada: A ideia que 42 eu te falei mais cedo ainda me parece boa. E as possibilidades não se encerram nessas duas. Há, 43 ainda, sentenças como (4): A ideia que eu te falei dela mais cedo ainda me parece boa. Brasileiros 44 distintos, com maior ou menor probabilidade (dado o perfil social de cada um), podem produzir 45 todas essas sentenças, e todos, certamente, somos capazes de compreendê-las. 46 Entretanto, é verdade que, em contextos mais formais e, portanto, mais monitorados, 47 estruturas como (2) têm melhor receptividade do que (3) e do que (4), respectivamente. Ainda 48 assim, continuamos sem falar propriamente da variação linguística. Isso porque pode parecer que 49 a língua é uma bagunça e que tudo é possível, o que não é verdade. Como exemplo, voltemos a 50 (1), retomado aqui como (5): Minha mãe me pediu que comprasse pão, mas esqueci de trazer ø 51 do mercado. Por que a anáfora zero se demonstra produtiva nesse contexto? Dentre outros 52 fatores que atuam nessa variação, podemos destacar a manutenção da função sintática e a 53 distância entre os referentes. Tanto em “comprasse pão” quanto em “esqueci de trazer ø”, “pão” Execução: Fundatec 9 446_CE_09_NS_19/10/201717:03:11 54 – ou a retomada a “pão” por meio de um zero – é um complemento verbal na função de objeto 55 direto. O fato de esse elemento se manter na mesma função sintática permite que ele continue 56 “vivo” na mente dos interlocutores e que seja mais facilmente recuperável. 57 Consideremos, ainda, que as duas menções a esse referente estão muito próximas entre 58 si, o que o mantém presente na memória de quem ouve ou lê. Assim, é plenamente compreensível 59 que a retomada a “pão” se dê por uma anáfora zero. Como Givón (1983: 67) postulou: “Quanto 60 mais previsível a informação, menos codificação linguística ela recebe”. Disso tudo, deve-se 61 entender, principalmente, que nas línguas há, de fato, variação e para cada fenômeno variável, 62 há motivações. Encontrar essas motivações é trabalho da Sociolinguística Variacionista, que, 63 divulgando e discutindo resultados de pesquisas, visa .... compreensão de que não há formas 64 erradas de se falar: há formas diferentes. Fonte: Andrei Ferreira de Carvalhaes Pinheiro | Adaptação Giovanna Henriques, publicado em 28/06/2017 em http://linguaportuguesa.uol.com.br/como-temos-falado-de-variacao/ – texto adaptado

Relativamente ao uso do sinal indicativo de crase, avalie as assertivas que seguem: I. Conforme Cegalla, crase designa, em gramática normativa, a contração da preposição a com o a inicial dos pronomes aquele(s), aquela(s), aquilo. Na linha 11, se observa esse tipo de ocorrência, em que o uso do pronome demonstrativo, ao preencher a lacuna pontilhada, deve receber a crase. II. De acordo com Cunha & Cintra, quando o artigo definido feminino vem precedido da preposição a, funde-se com ela, e tal fusão (=crase) é representada na escrita por um acento grave sobre a vogal. Essa ocorrência evidencia-se na linha 37, ao completarmos a linha pontilhada. III. Para Abaurre, crase é o resultado de um processo fonológico por meio do qual dois fonemas vocálicos idênticos realizam-se, na fala, como um fonema, apenas. Na escrita, esse fenômeno é marcado pelo uso do acento grave, quando a crase é desencadeada pela ocorrência da preposição a seguida do artigo definido a. Na linha 63, à completaria corretamente a lacuna pontilhada, conforme preconiza Abaurre. Quais estão corretas?

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