Língua PortuguesaColocação pronominalCGC UNIVASF 2016
UNIVASF
Questão de Língua Portuguesa
A figura do intelectual é francesa. Seu modelo mais luminoso talvez seja o escritor Émile Zola (1840- 1902), autor de Germinal. Zola é a encarnação clássica do homem de letras que, num momento crítico da nação, tem a coragem necessária para abandonar sua biblioteca e entrar de peito aberto no combate das ideias, no meio da arena pública. No dia 13 de janeiro de 1898, ele publicou na primeira página do jornal L’Aurore, de Paris, uma carta aberta ao então presidente francês, Felix Faure, acusando-o pela farsa jurídica tramada para levar o capitão de origem judaica Alfred Dreyfus à prisão perpétua. O título desse artigo, em letras devidamente garrafais, entrou para a História: “J’accuse...!” (“Eu acuso...!”). Em poucas horas, os 300 mil exemplares do Aurore se esgotaram nas bancas. Em pouco tempo, Dreyfus seria libertado pela força da opinião pública, e a intriga corrupta de antissemitismo que perseguia o capitão estaria derrotada. O paradigma ficou. O intelectual é alguém como Zola, dedicado ao pensamento e, ao mesmo tempo, disposto a intervir publicamente na defesa de teses difíceis, que nunca são óbvias. O intelectual precisa ser bem informado, ter cultura humanista e vasta erudição para demonstrar a veracidade de ideias que contrariam o senso comum. Do mesmo modo, precisa ter destemor para correr os riscos que a defesa de ideias controversas costuma cobrar. Com Émile Zola foi exatamente assim. Se a acusação que ele fez ao presidente se revelasse mentirosa, sua reputação estaria arruinada. Para resumir: um estudioso que nunca dá a cara a tapa, que nunca se expõe ao risco, pode ser um bom acadêmico, mas não é um intelectual; de outro lado, um polemista temerário que vive da polêmica sem muitos fundamentos pode ser muito vistoso, mas, por escassez de substância, também não é intelectual. Prossigamos. Outro francês que virou um símbolo do que significa ser intelectual foi o filósofo Jean- Paul Sartre (1905-1980). Em matéria de teses difíceis, Sartre exagerou um pouco na sua apologia do totalitarismo soviético, mas sua filosofia existencialista sobreviveu e influencia muita gente até hoje. No Brasil, inclusive. Uma de suas lições mais radicais – embora ele não tenha sido o único a ensiná-la – é aquela que afirma que, sem liberdade, nada feito. Para bom entendedor, quem renuncia à própria liberdade simplesmente deixa de existir. A lição vale para qualquer uma ou qualquer um, mas é especialmente válida para jornalistas, escritores, acadêmicos, artistas e, ainda mais, é válida para os intelectuais. Um intelectual que renuncia a sua liberdade de conhecer a verdade dos fatos é um absurdo absurdíssimo. À luz dos modelos de Sartre ou de Zola – e Raymond Aron, Claude Leffort e tantos mais –, o intelectual tem compromisso com as ideias, não com a obediência a uma igreja, a um Estado, a um time de futebol ou a um... partido. O intelectual pensa e, se pensa, pensa contra. O intelectual fala e, se fala, fala contra. O intelectual é um indivíduo, não um “coletivo”. Intelectual a favor é um oxímoro. O intelectual que não incomoda e não fustiga, mas adula e, por sabujice ou carência afetiva, aceita dobrar-se em deferências a um líder religioso, a um presidente da República, a um marechal, a um cacique, não é um intelectual – é apenas um áulico. Mas o que vem a ser um “áulico”? A palavra vem de outras paragens. Com origens que remontam ao grego (aulikós), passando pelo latim (aulicus), ela ressurgiu no século XVI com o sentido de “cortesão”, de “palaciano”. Hoje, designa aquele que enaltece e glorifica o poderoso. Se o poderoso em questão se encontra instalado no Estado ou aboletado no comando das legiões oposicionistas, é o de menos. Qualquer poderoso, esteja onde estiver, nutre estima por seus áulicos, aqueles amigos solícitos que riem de suas piadas, acendem seus cigarros e, quando conseguem atrair um microfone, elogiam os dotes visionários do chefe. Logo, um áulico é o oposto de um intelectual. Para ser um áulico, o sujeito não pode querer pensar muito, pois, se muito pensar, sua lealdade ao chefe deixará de ser assim tão constante, tão canina. Não obstante, eis que começam a pipocar áulicos que se emprestam ares de intelectuais independentes. Aí é que fica engraçado. Poderia existir esse híbrido entre o áulico e o intelectual? Poderia haver o “intelectuáulico”? Como no Brasil, em se plantando, tudo dá, nada é impossível. Fiquemos de olho na safra da estação. BUCCI, Eugênio. Disponível em: http://epoca.globo.com/politica/eugenio-bucci/noticia/2016/11/intelectuaulico-isso-existe.html Acesso: 28/11/2016 4 Concurso Público - UNIVASF
A posição do pronome “se” está corretamente descrita em:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.


