Questões de Língua Portuguesa · PROGP UFSJ

Língua PortuguesaFinalidade do texto e intenção do autorPROGP UFSJ 2015

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Questão de Língua Portuguesa

Transformações do trabalho no capitalismo contemporâneo Por José Dari Krein e Marcelo Weishaupt Proni Para entender as transformações recentes no mundo do trabalho, é preciso mencionar três fenômenos distintos e complementares. Em primeiro lugar, tem relação com a própria evolução do capitalismo que tende, pelo avanço do progresso técnico, a produzir uma quantidade maior de bens e serviços com um número cada 5 vez menor de trabalhadores. É um processo que ocorre de forma mais intensa no setor produtivo, que vai sendo compensado, em parte, pela criação de novas necessidades e serviços. Essa tendência ainda não foi capaz de relegar a segundo plano a produção de bens do setor industrial e agrícola como fonte de criação de riqueza. 10 Em segundo lugar, o trabalho foi fortemente impactado pela introdução de novas tecnologias e mudanças na organização do trabalho, denominada de reestruturação produtiva. À medida que o processo de trabalho e a gestão de pessoal foram sendo redesenhados no interior das empresas, os antigos mecanismos coletivos de resolução de conflitos foram dando lugar a procedimentos individualizados e 15 aumentou a concorrência entre os trabalhadores. Ao mesmo tempo, à medida que se impôs a flexibilidade da produção e as estratégias empresariais foram requerendo uma adaptação constante às novas condições do mercado, aumentou a insegurança quanto ao futuro, diminuiu a possibilidade de planejar no longo prazo e foi exigido um caráter flexível dos trabalhadores. A instabilidade dos vínculos de 20 emprego, a pressão por aumento de produtividade, a modulação da jornada de trabalho e os comportamentos acirradamente competitivos tornaram o ambiente de trabalho muito mais estressante, causando dificuldades de relacionamento pessoal e reforçando a propensão a doenças profissionais e a problemas psicológicos, como a depressão. 25 Em terceiro lugar, as duas mudanças acima se desenvolveram, a partir da crise dos anos 70, em um ambiente político e econômico muito desfavorável ao trabalho. Em conjunto com um processo de abertura e desregulamentação econômica também adveio a pressão pela flexibilização das relações de trabalho, que torna o emprego mais incerto, inseguro e precário. É fundamental destacar que as mudanças acima 30 ocorreram, com exceção dos cinco anos anteriores à atual crise, em um ambiente de baixo e instável crescimento econômico na maior parte dos países, o que contribuiu de forma bastante decisiva para a deterioração do mercado de trabalho, especialmente com a elevação do desemprego e da informalidade. Portanto, as transformações no mundo do trabalho são, ao mesmo tempo, 35 consequência e sustentáculo de mudanças mais gerais que vão ocorrendo na política, na economia e na sociedade. Ou seja, as transformações no mundo do trabalho não são mera consequência de um novo padrão tecnológico, mas são determinadas socialmente. A adaptabilidade das normas coloca a demanda por procedimentos que facilitem a alteração das condições que regem o trabalho, pois 40 na lógica de um capitalismo sob a dominância do capital financeiro prevalece a dimensão do curto prazo, exigindo também uma flexibilidade do trabalho. Em um capitalismo desregulado, tendem a prevalecer a fluidez e a efemeridade, que passam a não só reger a produção de bens como também a influenciar os valores da sociedade. Nessa ordem, a confiança, a lealdade e o compromisso mútuo são 45 princípios corroídos pelo avanço da razão econômica. A própria gestão da força de trabalho segue os preceitos dos valores associados ao curto prazo: a flexibilidade, a autogestão da carreira, o estímulo ao risco, a cooperatividade superficial e o desapego. As transformações vão estabelecendo uma reconfiguração dos que vivem do 50 trabalho, entre os quais se destacam a diminuição do operariado, o crescimento dos trabalhadores no setor de serviços, a subcontratação e a organização em rede. Mudanças que nem sempre significam uma valorização das ocupações. Pelo contrário, estão produzindo uma maior segmentação e pulverização dos trabalhadores. Nessa perspectiva, a tendência é constituir uma polarização social 55 em dois sentidos. Por um lado, há a criação de forma minoritária de ocupações, que exigem maiores qualificações e competências, em contraposição a um expressivo incremento de empregos taylorizados e pouco qualificados, denominados de “macjobs”. Ou seja, há ocupações mais próximas do que muitos teóricos chamam de sociedade do conhecimento com outras com baixo conteúdo profissional, 60 repetitivas e pouco criativas. Por outro lado, a própria desigualdade de renda permite a reprodução dessa lógica ao permitir que os com maior renda possam contratar uma série de serviços oferecidos pelos que não têm muita alternativa na dinâmica atual do mercado de trabalho. [...] 65 Portanto, há a combinação de transformações estruturais na forma de organizar a produção de bens e serviços (com uma consequente reconfiguração do mundo do trabalho) com a adoção de políticas que foram redefinindo o papel do Estado e que foram gerando um mercado de trabalho mais inseguro e precário. Dessa forma, a atual crise coloca em questionamento a atual ordem social e política, abrindo a 70 possibilidade de repensar a vida em sociedade e de constituir as bases para transformações mais profundas, que sejam capazes de combinar o desenvolvimento social com o respeito ao meio ambiente e a redistribuição do trabalho útil na sociedade. Disponível em: <http://luz.cpflcultura.com.br/transformacoes-do-trabalho-no-capitalismocontemporaneo,12.html>. Acesso em: 1 jun. 2014.

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