Questões de Língua Portuguesa · AMEOSC

Língua PortuguesaProgressão textual e organização de parágrafosAMEOSC 2026

Pref B Bonita (SC)

Questão de Língua Portuguesa

As doze uvas Quis um Natal e um Ano-Novo românticos com Beatriz. Comemoramos antes com os parentes e partimos para as celebrações a dois na Espanha. Quando estávamos na virada do ano em Barcelona, pensando onde brindar a estreia de 2026, Beatriz propôs a seguinte ideia: — Vamos passar o Réveillon com a minha prima? — Prima? Em Barcelona? Não acreditei. Só era possível concluir que a família imensa de minha esposa possuía filiais por toda parte no universo. Se fosse em Paris, teria gente. Se fosse em Istambul, teria gente. Os mineiros se espalham pelo mundo pelo prazer de receber um a um de seus conterrâneos, e demonstrar o quanto sentem saudade dos Gerais. Jamais imaginaria que ela desfrutava de uma extensão de seu lar na capital da Catalunha. Não é que eu gostei do convite inusitado? Muito melhor do que pagar 100 euros por cabeça, excluindo a bebida, em restaurantes incógnitos e impessoais, rodeado de desconhecidos. Ou padecer de frio na Praça da Espanha, esperando os fogos de artifício. Minha vontade era agradecer a Beatriz pela iniciativa, mas poderia inflar o seu ego e ela vir com sua máxima: "sempre tenho razão". Permaneci calado com um sorriso no rosto. Não estouramos champanhe como nas edições anteriores no Brasil. Não existiu nenhuma rolha explodindo no teto ou produzindo rasantes perigosos entre os convidados. Mergulhamos na tradição espanhola igualmente ruidosa de engolir doze uvas na contagem regressiva. Um segundo e uma uva na boca. Quase virei o ano me engasgando. O rito tem como objetivo atrair sorte, prosperidade e abundância nos doze meses. Cada uva representa um mês e um desejo específico (dinheiro, amor, saúde), mentalizados junto com as badaladas do relógio. Não chegamos ao preciosismo catalão de adotar a prática debaixo da mesa, ou guardar as sementes para reforçar a expectativa de fortuna. Não me apetecia tirar as sementes minúsculas dos dentes e estocá-las no bolso. Participamos da superstição de modo amador, abdicando da extravagância dos ortodoxos que engatinham no chão entre as cadeiras. Eu devo ter devorado 15 uvas de tão ansioso que fiquei. Já Beatriz se atrasou e mastigou nove, e se mostrou preocupada por não cumprir os requisitos. 10 Ela me perguntou, assustada: — E agora, será sinal de azar? Eu lhe respondi: — Não se estressa, eu empresto três uvas. Somando, finalizamos as vinte e quatro. E nos beijamos, misturando as promessas, renovando nossa paixão dentro do amor. CARPINEJAR, Fabrício. As doze uvas. Disponível em: https://www.otempo.com.br/opiniao/fabricio-carpinejar/2026/1/16/as-doz e-uvas . Acesso em: 14 abr. 2026.

Considerando as estratégias de leitura voltadas à apreensão da progressão argumentativa, da construção do ponto de vista do narrador e dos efeitos de sentido produzidos pela articulação entre literalidade e inferência, analise as afirmativas a seguir acerca do texto "As doze uvas": I.O desfecho amoroso apoia-se na relativização bem-humorada da superstição, pois o narrador transforma o eventual "déficit" ritual em gesto de partilha afetiva, sem invalidar simbolicamente a celebração. II. Ao afirmar que a família da esposa teria gente "em Paris" e também "em Istambul", o narrador mobiliza exagero expressivo para ampliar, com leve ironia, a ideia de capilaridade familiar e acolhimento dos conterrâneos. III.A contraposição entre restaurantes "incógnitos e impessoais" e a casa da prima em Barcelona contribui para valorizar, no plano temático, a intimidade do convívio em detrimento da experiência turística mercantilizada. É CORRETO o que se afirma em:

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