Língua PortuguesaMetonímia e catacreseFundatec 2015
CRMV PR
Questão de Língua Portuguesa
A descrença banal na loucura alheia 01 O ano de 1968 tornou-se um marco para a definição de uma nova era no campo dos costumes. 02 Depois de maio, a revolução sexual, a horizontalização da autoridade, a docilização do poder e a 03 feminilização da cultura, que antes ocupavam um lugar periférico, tornam-se gradualmente a 04 nossa nova forma de vida. Mas esta nova norma do desejo continha uma tese que foi sendo 05 gradualmente esquecida ou integrada, ou seja, de que a loucura teria de ser escutada, porque 06 ela tinha algo a dizer. Naquele momento a loucura era uma espécie de estilo de vida, meio beat- 07 nick, meio rock; meio alternativo, meio marginal. A loucura tinha uma face antropológica com 08 um pé na Índia e outro nos habitantes de outros planetas. Feita de estados alterados de 09 consciência, ela falava poeticamente, na voz dos excluídos, dos malditos e dos apocalípticos. 10 Em menos de 50 anos a loucura tornou-se novamente a psicose, a depressão, o pânico e as 11 drogadições. Ela normalizou-se a tal ponto que uma vida sem loucura, no trabalho ou na política, 12 no trânsito ou no amor, tornou-se uma vida sem sal. Com isso nossa cobiça pela adequação 13 começou a crescer. Destituída de sua utopia e de sua potência transformativa, a loucura foi 14 reduzida a loucura alheia, a uma diferença intolerável no modo de pensar. Lacan se perguntava 15 por que um neurótico obsessivo não consegue ter nenhuma intuição de sua própria loucura 16 quando encontrava outro neurótico obsessivo. Talvez isso exprima uma lei mais geral de que faz 17 parte da loucura que ela não consiga se reconhecer fora de si mesma. Nossa paixão mais inútil 18 pela identidade exclui do cálculo cotidiano que a loucura existe. Tornamo-nos tão obcecados pela 19 lei que acreditamos que todos se relacionam com ela exatamente como nós. 20 Em meio __ este tempo de organização de minorias em torno de modalidades de sofrimento 21 e segregação, do feminino __ negritude, da diversidade cultural __ respeito pelos animais 22 considerando __ iniquidade na distribuição de bens simbólicos e materiais da diversidade étnica 23 __ diversidade, é uma pena que a loucura tenha tão pouca expressão política entre __ minorias. 24 Isso mostra a indignidade normalopática a que se reduziu nossa situação. Não falo apenas do 25 preconceito contra a doença mental, que permanece quase intocada em nossas pautas de 26 reocupação do espaço público, em nosso debate ético e em nossas políticas de educação. É que 27 parece ser próprio da loucura que ela seja antes de tudo do outro, como desqualificativo, e depois 28 de tudo algo que não tem existência própria. O dito comum do preconceito na matéria afirma em 29 coro: “É só falta de educação, ‘chilique’ que não rasga dinheiro. Folgados que adoram ‘se fazer 30 de vítima’. Fraqueza moral de quem não tem fé ou força de vontade. Gente que quer chamar 31 atenção.” Normais são apenas as limitações e obrigações “irracionais” que nós mesmos nos 32 concedemos e nos impomos. Essa é a única loucura que tem direito à proteção e ao abrigo. 33 Aqueles que já atenderam pessoas com um sintoma como a cleptomania podem dizer como 34 nossa cultura policial simplesmente descredita da existência desta forma de loucura. O mesmo 35 para os pais de tantas anoréxicas, psicóticos e autistas. Idem para o pânico verdadeiro, para a 36 depressão consolidada, para os delirantes alucinados, para os acumuladores, maníacos por 37 compras ou sexo. O que dizer então das pequenas loucuras como não urinar em banheiros 38 públicos, não falar com estranhos, não se permitir usar certas roupas. No quadro geral todas as 39 loucuras se equivalem, mas isso não deveria nos eximir de reconhecer sua existência. Quando se 40 trata de loucura, o único universal é que somos todos exceções. (Fonte: Texto adaptado – Revista Mente & Cérebro – setembro/2015)
Analise as afirmações que são feitas sobre a expressão ‘docilização do poder’ (l.02): I. A expressão pode ser considerada uma metonímia, pois consiste no uso de uma palavra fora do seu contexto semântico normal. II. A palavra ‘docilização’ significa que o poder tornou-se algo dócil, fácil de conduzir, guiar. III. ‘docilização’ é uma derivação de ‘docilizar’, mas esse verbo não existe em língua portuguesa e foi inventada pelo autor do texto. Quais estão corretas?
Mais questões de Metonímia e catacrese
- IGEDUC 2026Assinale a alternativa em que ocorre metonímia.
- IBADE 2026A metonímia é uma figura de linguagem caracterizada pela substituição de um termo por outro com o qual mantém uma relação lógica e objetiva de sentido. Considerando esse conceito,…
- AMAUC 2026Para usuários como Espen Kraft, porém, o "valor dos 1 disquetes vai além da funcionalidade". Ele conserva milhares deles, com amostras sonoras raras coletadas ao longo de décadas.…
- AMAUC 2026As figuras de palavras promovem efeitos expressivos por meio da alteração do sentido habitual dos vocábulos, explorando relações de semelhança, substituição ou associação de ideia…
- Quadrix 2026No fragmento “Ela é considerada ‘o tato a distância’”, a expressão “o tato a distância” constitui uma metonímia, pois transfere para a voz uma propriedade do sentido do tato, esta…
Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.



