Língua PortuguesaComplemento nominalUFMT 2007
Pref Cuiabá
Questão de Língua Portuguesa
− Acho que tou − disse a Vanessa. − Ai, ai, ai − disse o Cidão. No entusiasmo do momento, os dois a fim e sem preservativo à mão, a Vanessa tinha dito “Acho que dá”. E agora aquilo. Ela podia estar grávida. Do “Acho que dá” ao “Acho que tou”. A história de uma besteira. Mais do que uma besteira. Se ela estivesse mesmo grávida, uma tragédia. Tudo teria que mudar na vida dos dois. O casamento estava fora de questão, mas não era só isso. A relação dos dois passaria a ser outra. A relação dela com os pais. Os planos de um e de outro. O vestibular dela, nem pensar. O estágio dele no exterior, nem pensar. Ele não iria abandoná-la com o bebê, mas a vida dele teria que dar uma guinada, e ele sempre culparia ela por isto. Ela não saberia como cuidar de um bebê, sua vida também mudaria radicalmente. E se livrarem do bebê também era impensável. Uma tragédia. − Quando é que você vai saber ao certo? − Daqui a dois dias. Durante duas noites, nenhum dos dois dormiu. No terceiro dia ela chegou correndo na casa dele, agitando um papel no ar. Ele estava no seu quarto, adivinhou pela alegria no rosto dela qual era a grande notícia. − Não tou! Não tou! Abraçaram-se, aliviados, beijaram-se com ardor, amaram-se na cama do Cidão e ela engravidou. Era uma tradição. Todos os anos, na praia, faziam um teatrinho. Para as crianças. Os mais velhos inventavam uma história, distribuíam os papéis, ensaiavam e apresentavam a peça nos fundos da casa. As crianças ficavam excitadas, antecipando o teatrinho de todos os anos, e os mais velhos se divertiam preparando a produção. O autor era geralmente o Oscar, que também se encarregava da direção, e o elenco não mudava muito: a Mirthes, mulher do Oscar, o tio Jesus, a Eloá, irmã da Mirthes, o primo Klerison, que tocava violão e fazia a música do espetáculo, a prima Gessi, que era baixinha e por isso sempre fazia o papel de um bicho... Mas naquele ano a irmã mais velha da Mirthes, a Iolanda, veio do Espírito Santo passar o verão com eles e trouxe sua enteada. Katy, com cá e ipsilone. Dezessete anos. Linda. Na primeira vez que viu a Katy de biquíni, o Oscar ficou com soluço. “O que é isso, Oscar?” “Não sei. Soluço. É a primeira vez que eu tenho!” “Toma um copo d’água, disse a Katy, e o Oscar teve a sensação de ser lambido pela voz dela. Lambido! O soluço aumentou. ••A Iolanda já tinha muito ouvido falar no teatrinho do verão e perguntou o que o Oscar estava preparando para aquele ano. Oscar disse que estava pensando em fazer alguma coisa diferente, “com um pouco mais de fôlego”, algo, talvez, baseado nos gregos. Gregos, para crianças? Não sei, disse o Oscar. Este ano vamos improvisar. Era isso. Improvisariam. A Mirthes estranhou, mas o Oscar era o diretor. Ele é que mandava. E o Oscar fez questão que a Katy participasse da peça. Seria uma princesa. Uma princesa grega. As crianças gostavam de princesas. E a prima Gessi seria o macaco da princesa. “Como é música grega?” quis saber o primo Klerison. “Improvisa!” ordenou Oscar. ••A peça não ia bem. Oscar, no papel de rei, pai da princesa, cochichava para os outros. Inventava suas falas, empurrava-os de um lado para o outro. A prima Gessi não obedecia mais suas ordens. Suas macaquices era o que fazia mais sucesso com as crianças. “Oscar”, cochichou a Mirthes, “as crianças não estão entendendo nada!” E então, Oscar tomou a decisão: “Nelson Rodrigues.” “O quê, Oscar?!” “Vamos para um final Nelson Rodrigues.” O pai atacaria a própria filha. A beijaria violentamente, começaria a rasgar sua túnica e... “Oscar, as crianças!” Oscar caiu em si. Mirthes tinha razão. Era preciso improvisar outro final. O macaco se transformaria num príncipe – o tio Jesus – que casaria com a princesa. Era isso. Além de tudo, seria uma maneira de tirar a prima Gessi de cena.
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.


