Língua PortuguesaMetáfora e comparaçãoVunesp 2026
Faculdade Moinhos
Questão de Língua Portuguesa
1 João riu muito quando a Heleninha contou que tinha um ursinho de estimação, sem o qual não saberia viver, e que ele se chamava Tedi. — Vá se acostumando — disse a futura sogra ao João, dias antes do casamento, depois de a Heleninha revelar que levaria o Tedi na lua de mel. — Ela não larga esse ursinho. Desde menininha. E a Heleninha levou o ursinho de estimação na lua de mel. E colocou o ursinho na cama do casal, depois que voltaram da lua de mel e se instalaram no apartamento novo. E João não se cansava de olhar a nova mulher dormindo abraçada ao seu ursinho. Bonito aquilo. Heleninha, no fundo, ainda era uma criança. O ursinho era a segurança de Heleninha. Era o seu apego à infância e às suas doces ingenuidades. E seu confidente. E seu conselheiro. — Ah, é? — sorriu João. — Você conta todos os seus segredos para o Tedi? 5 — Conto. — E ele lhe dá conselhos? — Dá. — Um dia vou ter que ter uma conversa com esse ursinho... — Ele não fala com qualquer um — disse Heleninha. Séria. 10 João deu uma boa risada. Mas Heleninha continuou séria. Estava sentida. O marido estava fazendo pouco dela. Estava tratando-a como a uma criança. No dia seguinte, Heleninha pediu para João ir dormir na sala. — Por quê? — O Tedi acha que será melhor para o nosso casamento. A sogra recomendou ao João que tivesse paciência. Na verdade, durante toda a infância e a adolescência de Heleninha, os conselhos que ela atribuía ao Tedi tinham se revelado muito sensatos. A própria escolha do João como marido fora do Tedi, segundo Heleninha. João entendia do mercado de capitais. Ficaria rico, comprando e vendendo na hora certa. Daria uma boa vida a Heleninha, na opinião do Tedi. Estava passando por dificuldades no momento, mas quem não estava, no seu ramo? Era só recomeçar a fazer as escolhas certas e voltaria a ter sucesso no mercado de capitais. Segundo o Tedi. João resistiu à conclusão de que toda a família era louca e decidiu que o jeito era conquistar a boa vontade do Tedi. Mas como? Nem todo o amor que sentia por Heleninha o faria puxar conversa com um ursinho de estimação. Que, além de tudo, não falava com qualquer um. O que fazer? Resolveu pedir a Heleninha que lhe transmitisse as instruções do Tedi sobre quando e o que comprar e quando e o que vender. E, seguindo os conselhos do Tedi, João voltou a ganhar dinheiro. 15 João não comenta com ninguém do ramo o segredo do seu sucesso. Nem acredita que são os conselhos do Tedi os responsáveis pela sua recuperação. É tudo coincidência, claro. Mas o mercado está de um jeito, raciocina, que se deve aceitar ajuda de onde vier. E pelo menos o Tedi o deixou voltar para a cama da Heleninha. (Luis Fernando Verissimo. Diálogos impossíveis, 2012.)
Na construção do sentido de sua crônica, Luis Fernando Verissimo explora, sobretudo, o seguinte recurso expressivo:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.


