Língua PortuguesaPronomes indefinidos e interrogativosFundep 2004
CM BH
Questão de Língua Portuguesa
Naquela tarde, eu estava triste e andava sem rumo pela praça. Tudo parecia tris te para mim. As vitrines estavam sem brilho e nenhum dos apelos da publicidade me afetava. Havia na praça alguns bancos. Sentei me em um deles e fiquei olhando o tumulto do fim de tarde. Algumas pessoas iam apressadas, outras andavam devagar, 5 outras ainda pareciam tão tristes quanto eu e estavam também sentadas nos bancos. Todos estavam prestando atenção em si mesmos. Um casal passou por mim, em si lêncio. Um homem falava baixinho, consigo mesmo. Algumas luzes começavam a ser acesas. Era o início da noite. Todos iam para algum lugar. Só eu estava ali, sem rumo e sem vontade de voltar. 10 Então, um desses cães vadios, da rua, veio se aproximando do banco em que eu estava. Não estava apressado. Andava apenas. Logo que me viu, parece que tomou a decisão de vir ao meu encontro. Ele mudou de direção. Não abanou o rabo nem se mostrou feliz em se aproximar de mim. Veio se aproximando devagar, como que pedindo licença. Quando estava bem perto, olhou me sem censura e sem compaixão. 15 Olhou ao redor, voltou a olhar para mim e, em seguida, deitou se perto dos meus pés. Pousou a cabeça entre as patas dianteiras e ficou ali, olhando para mim. Eu pen sei: Não tenho nada para lhe dar. Ele permanecia, ali, olhando para mim. Mudei a posição dos pés. Ele levantou a cabeça e se preparou para sair dali. Porém, como só mudei a posição dos pés, ele se ajeitou melhor e continuou deitado me olhando. De 20 vez em quando, ele levantava a cabeça e olhava alguma coisa ao longe. Sempre que fazia isso, levantava as orelhas, procurando escutar melhor. Depois me olhava e se deitava. Fiquei reparando aquela figura na minha frente. Tratavas e de um vira lata, com certeza, embora não entenda nada de cães. Não era de todo magro, embora seu porte 25 indicasse uma vida difícil. Não era um belo exemplar da espécie, mas não era feio. Tinha o pêlo sujo, mas não despertava nojo. Olhando aquele cão, fiquei imaginando as dificuldades que ele deveria encontrar para sobreviver. Era da rua e, portanto, não tinha dono. Era um cão livre, mas isso tinha um preço. Não tinha almoço ou jantar certos, nem banhos, nem escovação de pêlos, vacinas, ou seja, tudo que parece fazer 30 um cãozinho com dono feliz. Ele parecia entender o que eu estava pensando. De repente, ele se levantou, es preguiçou se, abriu a boca, chegou mais perto de mim e cheirou meu sapato, depois a bainha de minha calça. Resolveu deitar se bem perto de mim. Notei que agora fechara os olhos e parecia dormir. Fiquei ali velando seu sono e 35 me sentido responsável por sua tranqüilidade. Voltei a olhar para a praça e agora tudo parecia mais calmo. Poucas pessoas andavam por ali. As luzes estavam mais brilhantes. Era noite completa. 3 Os ruídos, à noite, são diferentes dos ruídos do dia. A noite amplifica qualquer barulho. E foi assim que fiquei vigiando os ruídos da praça, para que nada incomo 40 dasse o sono daquele cão que eu não conhecia e que dormia aos meus pés. Ele pare cia dormir placidamente. Fiquei imaginando que sonhos ele teria... Um homem se aproximou de mim e me perguntou as horas. Respondi e ele me perguntou se aquele cãozinho era meu. Disse que não. O homem olhou para o cão e depois para mim. Ia dizer mais alguma coisa, mas desistiu e foi embora. 45 Voltei a olhar para aquele cãozinho deitado aos meus pés. Ele viera, não sei de onde, me fazer companhia. Ele me acolheu e me aceitou, com minha tristeza. Não disse nada, nada pediu. Apenas me aceitou. Fiquei um longo tempo olhando para ele. Mais tarde, ele se levantou. Olhou me também longamente. Depois se foi, de 50 vagar, mas sem olhar para trás. Fiquei novamente sozinho e triste. Nunca mais voltei a ver esse cão, embora tenha voltado muitas vezes à praça. Naquela noite, pensei em levá lo comigo, dar lhe abrigo e comida. Porém sua de terminação, na hora de partir, deixou me desconcertado. Ele nada queria de mim. Ele não veio a mim para negociar afeto ou carinho ou comida. Ele apenas me fez 55 companhia, numa hora triste. Sentado naquele banco, posso sentir sua respiração e ver aquele olhar terno, que nada pede. Apenas olha. A praça agora não é mais triste, pois nela há um banco onde um certo cãozinho me ensinou que a amizade não é comércio de coisas ou de afeto. A amizade é apenas 60 um encontro, sem nada pedir, é apenas um certo jeito de olhar. CAROZZI, Geraldo. O TEMPO. Belo Horizonte, 24 jun. 2003. Magazine, p. 8.
7
Assinale a alternativa em que a palavra destacada, na frase transcrita, NÃO expressa uma idéia de quantidade indefinida.
Mais questões de Pronomes indefinidos e interrogativos
- CPCON 2026No trecho “qualquer cidadão pode solicitar informações ao órgão público sem precisar justificar o pedido”, a palavra “qualquer” classifica-se como:
- IBADE 2026No trecho “os demais aparecem como obstáculos móveis”, a expressão “os demais” classifica-se corretamente como:
- FCC 2026Considere as três afirmações a respeito do uso de pronomes no texto: I. Em Anos atrás, quem chegava aos 80 era sexagenário, o termo destacado atua como um pronome relativo e cumpr…
- Fundatec 2026Assinale a alternativa que apresenta uma palavra que compõe o trecho a seguir, retirado do texto, que seja um pronome indefinido. “E talvez o segredo esteja justamente na simplici…
- FUNATEC 2026No segmento “trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras”, a palavra “outra” exerce, no contexto, função de:
Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.


