Língua PortuguesaVariação linguísticaFCM - CEFETMINAS 2025
Pref Contagem
Questão de Língua Portuguesa
Ilustração de Marcelo Martinez - Marcelo Martinez/Folhapress. Adaptado. Era um conjunto de prato e cumbuca, feito de uma melamina tão rígida quanto os valores da época. A mais dura – e plástica – fábula de Esopo, pronta para servir à mesa um verdadeiro tesouro moral para a juventude. Comprado na Mesbla (antiga loja de departamentos) por alguma tia de espírito nobre, me foi presenteado assim que aprendi a ler. E mais do que aparelho de jantar mirim, serviu de aparato ideológico para almoços e jantares de tantos pirralhos enjoados para comer. Alegre, livre e tocando viola no alto de um cogumelo, uma cigarra com cabelo de astro da jovem guarda ilustrava o mais raso dos pratos. Durante todas as refeições da minha infância, recebeu olhares de reprovação por parte de uma formiga seríssima que estava desenhada com uniforme de operária. Saboreando letras e legumes com avidez inversamente proporcional, eu catava a frase que só reaparecia quando eu já havia comido tudo, feito uma boa menina. Meu feijão com arroz emocional: "A cigarra só cantava, e a formiga trabalhava". Na cumbuca de sobremesa, feito a cereja dessa lição de caráter e força de vontade, uma imagem que frequentou pesadelos e lanches da tarde. Humilhada, passando perrengue e sobretudo recibo de vida louca, a cigarra diante da casa da formiga, mas debaixo de outra sentença condenatória. O "eu te disse, eu te disse" das parábolas infantis: "quem canta todo verão no inverno fica sem pão". Apavorada pelas consequências terríveis da boemia fanfarrona da cigarra, azucrinei todos os parentes tentando descobrir que tipo de inseto eu poderia ser quando crescesse. "Não existe cigarra-formiga?" E chorava lágrimas grossas, que inundavam meus "chambinhos" e "danoninhos" existenciais. De lá para cá, uma existência inteira fazendo planos e pés-de-meia. Tentando equilibrar novos pratinhos – prazer, dever, culpa, família, horas extras e pernas para cima – com alguma sanidade, igual a qualquer adulto. Até que numa madrugada insone, fazendo higiene mental em sites de leilão online, tive meu maior insight "psicocacarequeiro": achei o conjunto completo. Contendo as peças que faltavam e que eu nunca soube que sequer existiam. Entre elas, o Santo Graal dos copinhos. Aquele que poderia ter contido todos os bálsamos e "Fantas uva" que apaziguariam a criança angustiada que fui, justamente por conter também as duas personagens abraçadinhas. E os dizeres: "uma hora para brincar e outra para trabalhar". Esse fim da história nós, cigarras-formigas com louvor, sempre o merecemos. Braune, Bia. Tão cigarra quanto formiga. Folha de São Paulo, Opinião, 25.ago.2024. 3
A linguagem coloquial, também chamada de linguagem informal ou linguagem popular, só NÃO está presente na frase
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