Língua PortuguesaPolissemiaFJPF (UFRJ) 2006
EMBRAPA
Questão de Língua Portuguesa
Texto 3 Manhã quente de dezembro, rua São Clemente. Um ônibus atropelou um menino de dez anos. As rodas do veículo passaram sobre a sua cabeça deixando um rastro de massa encefálica de alguns metros. Ao lado do corpo uma bicicleta nova, sem um arranhão. Um guarda de trânsito prendeu em flagrante o motorista. Duas testemunhas afirmaram que o ônibus vinha em grande velocidade. O local do acidente foi isolado cuidadosamente. Uma velha, mal vestida, com uma vela acesa na mão, queria atravessar o cordão de isolamento “para salvar a alma do anjinho”. Foi impedida. Com os outros espectadores, ela ficou contemplando o corpo de longe. Separado no meio da rua, o cadáver parecia ainda menor. Ainda bem que hoje é feriado, disse um guarda, desviando o trânsito, já imaginou isso num dia comum? Aos gritos uma mulher rompeu o cordão de isolamento e levantou o corpo do chão. Ordenei que ela o largasse. Torci seu braço, mas ela não parecia sentir dor, gemia alto, sem ceder. Eu e os guardas lutamos com ela até conseguir tirar o morto dos seus braços e colocá-lo no chão onde ele devia ficar, aguardando a perícia. Dois guardas arrastaram a mulher para longe. Esses motoristas de ônibus são todos uns assassinos, disse o perito, ainda bem que o local está perfeito, dá pra fazer um laudo que nenhum rábula vai derrubar. Fui até o carro da polícia e sentei no banco da frente, por alguns momentos. Meu paletó estava sujo de pequenos despojos do morto. Tentei limpar-me com as mãos. Chamei um dos guardas e mandei trazer o preso. No caminho da delegacia olhei para ele. Era um homem magro, aparentando uns sessenta anos, e parecia cansado, doente e com medo. Um medo, uma doença e um cansaço antigos, que não eram apenas daquele dia. (FONSECA, Rubem. O cobrador. 2 ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1979, p. 129-30.)
Na passagem do texto 3 “As rodas do veículo passaram sobre a sua cabeça”, a palavra cabeça está empregada com o sentido de “extremidade superior do corpo humano”. Noutros contextos, porém, ela pode assumir acepções distintas - por exemplo, em “saber de cabeça”, “perder a cabeça”, “pagar tanto por cabeça”, “ferir a cabeça do dedo” etc. Exemplos desta ordem são característicos de propriedade semântica da palavra denominada:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.



