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Questões de Língua Portuguesa · CEPS UFPA

Língua PortuguesaPonto de vista e posicionamento do autorCEPS UFPA 2016

UNIFESSPA

Questão de Língua Portuguesa

Por Carla Rodrigues 1 Pode o subalterno falar? Não, responde a filósofa indiana Gaiatri Spivak* num ato performativo 2 em que, ao dizer não, já está problematizando a interdição da voz subalterna e dando início a um 3 importante debate sobre pós-colonialismo e gênero. Para pensar os retrocessos de gênero no Brasil, 4 em particular, e na América Latina, em geral, faço uma analogia a esta pergunta – “pode uma mulher 5 governar?” – para, com Spivak, responder não. [...] 6 No início dos anos 1990, a feminista norte-americana Susan Faludi publicou “Backlash”**, livro 7 em que identificava as inúmeras formas de retrocesso em relação aos avanços no campo feminista 8 desde os anos 1960 (para uma excelente recuperação desta história, ver “She’s beautiful when she’s 9 angry”***, documentário em cartaz no Netflix). O diagnóstico de Faludi passa por capas de revista – a 10 famosa edição da Newsweek que, em 1986, informava que, aos 35 anos, uma mulher com diploma 11 superior teria apenas 5% de chance de casar –, e pela percepção de que estaria em curso um 12 movimento de “volta ao fogão”, na já batida estratégia de que lugar de mulher é em casa. 13 A recente campanha #belarecatadaedolar expressou, de certa forma, esse jogo de forças 14 ativas e reativas. Em contraposição à presidência da República exercida por uma mulher, uma revista 15 semanal veiculou perfil da mulher do presidente interino Michel Temer, cujos atributos eram os mesmos 16 que nos fariam voltar alguns séculos ao passado. Beleza para agradar o marido, comportamento 17 domesticável, em ambiente familiar e caseiro. A reportagem fez eclodir um tipo de revolta muito 18 parecida com as manifestações de repúdio ao texto da Newsweek que motivou Faludi a perceber os 19 retrocessos na sociedade norte-americana. 20 Penso que, no caso do Brasil e da América Latina, o mais grave do nosso “backlash” está no 21 fato de que mesmo os mínimos avanços produzem reações muito violentas. Apesar de anos de luta, o 22 movimento de mulheres ainda não conseguiu a descriminalização do aborto. Pequenas conquistas, 23 como o fim da obrigatoriedade do registro de boletim de ocorrência para interrupção de gravidez em 24 caso de estupro, estão ameaçadas pela ação danosa do deputado Eduardo Cunha. No âmbito 25 estadual, foi preciso uma grande mobilização para impedir a aprovação de uma lei que obrigaria 26 profissionais de saúde do Estado do Rio de Janeiro a notificar a polícia sempre que uma mulher 27 chegasse a um hospital com complicações pós-aborto. 28 Neste contexto de pequenas conquistas e grandes retrocessos, Dilma esteve sob ataque 29 desde o início do seu primeiro mandato. Sofreu críticas por não se adequar ao estereótipo do feminino 30 e deputados acharam cabível chamar a chefe de estado por denominações grosseiras como “jararaca”. 31 De certa forma, é como se sua figura austera tivesse encarnado a abjeção da sociedade brasileira em 32 relação a uma mulher no poder. Insistentemente, ela buscou responder “sim, pode uma mulher 33 governar”, e a cada sim produziu mais e mais reações contrárias ao seu lugar de poder. Talvez tenha 34 sido, aos olhos de muitos, esse o “crime” cometido pela presidenta. Talvez por isso estejamos 35 enfrentando esse retrocesso perturbador com o qual nos ameaçam os homens brancos que tomaram 36 o poder. Gaiatri Spivak: crítica e teórica indiana, mais conhecida por seu artigo Can the Subaltern Speak? (Pode o subalterno falar?), considerado um texto fundamental sobre o pós-colonialismo **Backlash = retrocesso *** She’s beautiful when she’s angry = Ela é bonita quando está com raiva Disponível em http://agoraequesaoelas.blogfolha.uol.com.br/2016/05/24/pode-uma-mulher-governar/. Acessado em 24 de maio de 2016. (Texto adaptado)

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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.