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Questões de Língua Portuguesa · COPS UFLA

Língua PortuguesaInterpretação de textosCOPS UFLA 2016

UFLA

Questão de Língua Portuguesa

CONSUMISMO E OBSOLESCÊNCIA 1 Sentimos necessidade exagerada de rótulos. De definir o que é velho e o que é novo. De enquadrar o bom e o 2 ruim. E muitas vezes, na nossa sociedade ocidental, velho é igual a ruim e novo é igual a bom. 3 “O cinema não existe mais”, “o livro e o jornal de papel acabaram”, “telefone fixo já era”. Pelo menos é isso 4 que se ouviu por aí, em uma busca frenética por matar o velho para vender o novo. Explicando: disseram que o DVD 5 e os filmes pela internet iriam acabar com o cinema. Disseram que livros digitais e sites de notícias iriam aposentar 6 seus equivalentes impressos. Disseram que a telefonia celular acabaria com o telefone fixo. 7 Mas todas essas tecnologias continuam entre nós. O cinema se reinventou. A telefonia fixa agregou serviços 8 de internet e tevê. Os livros de papel continuam por aí. É certo que a tendência à diminuição de escala é evidente, 9 mas essas tecnologias continuam tendo suas aplicações. De fato chegará a hora em que elas não serão mais 10 reconhecidas, tamanha a transformação que sofrerão, mas esse tipo de transição não costuma ocorrer de forma 11 abrupta no tempo. 12 O ponto a ser questionado aqui é essa estranha necessidade de matar um conceito para criar outro, em vez 13 de uma abordagem de transição e complementariedade, baseada em necessidades reais da sociedade, não em 14 necessidades de geração de lucro na indústria. 15 O leitor se lembra do “tocador de MP3”, que quando passou a tocar vídeos MP4 passou a se chamar MP4? 16 Depois disso vieram MP5, MP6, MP 1 milhão, cujos nomes não fazem o menor sentido técnico, mas, pelo fato de 17 serem um número maior, sugerem a obsolescência do modelo anterior. Quantas daquelas oito funções que um 18 MP11 teria a mais em relação ao MP3 de fato seriam utilizadas? Aliás, quais eram elas mesmo? 19 Os mais experientes vão se lembrar de história semelhante: a do videocassete. Quando foi lançado o 20 videocassete de oito cabeças, tornou-se um absurdo comprar um vídeo de “apenas” quatro cabeças. Mas pouca 21 gente sabe para que serviam as tais cabeças a mais. Serviam, por exemplo, para dar qualidade superior quando o 22 filme era exibido em câmera lenta. E quantas vezes um indivíduo que comprou um vídeo de oito cabeças apertou o 23 botão de slow motion do seu controle remoto? Falando no controle, para que tanto botão se a maioria absoluta dos 24 usuários utilizava somente seis – iniciar, parar, pausar, voltar, adiantar e gravar –, mas, é claro, com seus nomes em 25 inglês, que é mais chique? Ou seja, para a maioria das pessoas, as quatro cabeças extras serviam exatamente para 26 nada, então, um vídeo de quatro cabeças estaria perfeito se não fosse tão fora de moda... 27 O ritmo de consumo que estamos estabelecendo está exaurindo nosso planeta. Pensemos em quanta 28 matéria-prima é necessária para produzir tantos objetos sem utilidade. As quatro cabeças extras do videocassete 29 que nunca foram utilizadas. O fone de ouvido que veio com seu celular velho e do qual você só se lembrou no dia em 30 que foi jogar a caixa fora. Quanto metal, quanta água e quanto petróleo não foram direto para o lixo? 31 A máxima de Lavoisier “na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma” é clara no sentido de 32 que nada termina e nada começa. Mas isso não vende. Isso não induz as pessoas a jogar o velho fora e gastarem seu 33 dinheiro com um produto novo. 34 E produtos de durabilidade prolongada não permitem novas vendas. Consumidores esclarecidos sobre o que 35 estão comprando não despenderão dinheiro a mais por um recurso inútil ou pela substituição de algo que já lhes 36 atende. 37 A contramão dessa conversa toda está na ruptura do paradigma da posse. Essa ruptura se dá por meio de 38 duas palavras chave: compartilhamento e serviços. Ao substituir a posse pelo uso, os recursos podem ser 39 compartilhados e, dessa forma, utilizados de forma mais dinâmica. Uma bicicleta alugada atende muito mais 40 pessoas com a mesma matéria prima do que se cada indivíduo optasse por comprar sua própria bicicleta. O mesmo 41 princípio vale para a computação em nuvem (cloud computing), em que o uso de servidores compartilhados reduz a 42 quantidade de servidores alocados dentro das empresas individualmente. Transporte coletivo eficiente é muito 43 melhor que um carro de 1,5 tonelada para transportar um único ser humano de 80 quilos. 44 Essa conversa poderia ir ainda mais longe se observássemos essa questão sob o viés antagônico do “ter” ou 45 “ser”, em que o “ter” remete à posse de produtos e o “ser” remete ao usufruto de serviços. 46 Mas, para não filosofar demais, fiquemos com um único ponto de reflexão: será que tudo que a indústria 47 tenta nos convencer a jogar fora e comprar de novo realmente é necessário? Nosso planeta e o nosso bolso 48 certamente vão ficar felizes se começarmos a dizer mais “não”. Vinicius Soares da Silveira, engenheiro de telecomunicações com MBA em Marketing, mestrando em Engenharia de Produção, gerente de Produtos da Leucotron.

Leio o fragmento retirado do texto 2: “O ponto a ser questionado aqui é essa estranha necessidade de matar um conceito para criar outro, em vez de uma abordagem de transição e complementariedade, baseada em necessidades reais da sociedade, não em necessidades de geração de lucro na indústria.” (Linhas 12-14). Pode-se inferir que esse fragmento evidencia que:

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