Questões de Língua Portuguesa · Fundatec

Língua PortuguesaPredicativo do sujeito e do objetoFundatec 2022

Prefeitura Municipal de Monte Belo do Sul/RS Concurso Público nº

Questão de Língua Portuguesa

Por Martha Medeiros 01 Creio que eram seis horas da manhã. Reparei pelas frestas da cortina que o dia estava 02 amanhecendo. O barulho era de tontear; algo muito grave deveria ter acontecido para um 03 helicóptero ficar parado bem em cima do meu edifício. Pior: ele parecia estar alinhado à minha 04 janela. Aos poucos, fui voltando do sono e disse a mim mesma: deve ter acontecido um assalto 05 a banco, e estão à procura de fugitivos. 06 Entretanto, helicóptero, insistente, não voava para longe: parecia resoluto em não se 07 deslocar. 08 Desisti de voltar __ dormir, não conseguiria. Levantei, fui __ sala, abri __ porta de correr 09 que dá para a sacada e olhei para o céu. Nada. Então, olhei para baixo, e ali estava o helicóptero, 10 estacionado num terreno descampado. Ali, diante dos meus olhos, o helicóptero que não era 11 helicóptero, e sim um equipamento de construção civil ligado na velocidade máxima; um 12 trambolho que fazia um barulho idêntico ao de um helicóptero e que continuaria a me servir de 13 despertador nas manhãs seguintes. 14 Se você é morador de uma grande cidade, também deve ter um helicóptero matinal 15 entrando pelos ouvidos, ou uma bateria de escola de samba, ou uma turbina de avião, ou 16 qualquer coisa excessivamente barulhenta que seja oriunda do que se chama obra. Metrópoles 17 estão em constante construção. Aqui onde moro, há essa obra bem em frente ao meu prédio, 18 outra bem ao lado e duas logo atrás. Silêncio? Estamos em falta. 19 Não há como reclamar para o bispo. Obras são efeitos colaterais do progresso, e o barulho 20 faz parte do pacote, pois não se ergue um edifício aos sussurros. 21 Então, como tenho escritório em casa, trabalho o dia inteiro com essa trilha sonora pouco 22 romântica. Desde a manhã até o final da tarde, escrevo, escrevo, escrevo e não ouço o toque 23 dos meus dedos sobre o teclado porque ele é abafado pelos motores de equipamentos pesados, 24 caminhões despejando cimento, batidas de estacas. Uma orquestra em permanente ensaio, e só 25 resta adaptar-me, já que um dia o edifício onde moro também foi um esqueleto que não foi posto 26 em pé quietinho. 27 Sou uma escritora de apartamento e digo isso com o mesmo tom pejorativo que 28 classificamos crianças de apartamento. Deveríamos estar cercados por jardins, margens de rio, 29 praias abertas, mas vivemos confinados entre quatro paredes que, de certa forma aleijam a 30 inspiração. Escrever, lógico, me oferece várias oportunidades de fuga. Estou onde estou, 31 fisicamente, mas também não estou: invento meu próprio lago, pátio, horizonte. Até que volto 32 a ser atingida pela consciência do inevitável: não é o barulho do mar que escuto, nem o das 33 folhas caindo nesse final de outono e sim o de betoneiras, perfuratrizes, compactadores, rolos 34 compressores. De poético me restou apenas a chuva. Quando chove, a obra para. Quando chove, 35 o helicóptero some. Quando chove, o silêncio me pisca o olho: “Aproveita a trégua e me escuta”. (Disponível em: A graça das coisas. L&PM Editores, 2013 – texto adaptado especialmente para esta prova).

Considerando a frase: “Obras são efeitos colaterais do progresso”, como é classificada, sintaticamente, a expressão “efeitos colaterais”?

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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.