Língua PortuguesaAntítese, paradoxo e oxímoroVunesp 2026
UNESP
Questão de Língua Portuguesa
1 No dia seguinte de manhã, informado de que a tia dormia sossegadamente, Estácio abriu uma das janelas do quarto e relanceou os olhos pela chácara. A alguns passos de distância, entre duas laranjeiras, viu Helena a ler atentamente um papel. Era uma carta, longa de todas as suas quatro laudas escritas. Seria alguma mensagem amorosa? Essa ideia molestou-o muito. Afastou-se da janela, conchegou1 as cortinas, e pela fresta procurou observar a irmã. Helena estava de pé, no mesmo lugar, e percorria rapidamente as linhas, até ao final da última página. Ali chegando, deu dous passos, tornou a parar, volveu ao princípio da carta, para a ler de novo, não já depressa, mas repousadamente. Estácio sentiu-se movido de imperiosa curiosidade, à qual vinha misturar-se uma sombra de despeito e ciúme. A ideia de que Helena podia repartir o coração com outra pessoa desconsolava-o, ao mesmo tempo que o irritava. A razão de semelhante exclusivismo, não a explicou ele, nem tentou investigá-la; sentiu-lhe somente os efeitos, e ficou ali sem saber que faria. Duas vezes saiu da janela para ir ter com a irmã, mas recuou de ambas, refletindo que a curiosidade pareceria impolidez, se não era talvez tirania. Ao cabo de alguns minutos de hesitação, saiu do quarto e dirigiu-se à chácara. Quando ali chegou, Helena passeava lentamente, com os olhos no chão. Estácio parou diante dela. — Já fora de casa! — exclamou em tom de gracejo. 5 Helena tinha a carta na mão esquerda; instintivamente a amarrotou como para escondê-la melhor. Estácio, a quem não escapou o gesto, perguntou-lhe rindo se era alguma nota falsa. — Nota verdadeira — disse ela, alisando tranquilamente o papel, e dobrando-o conforme recebera —; é uma carta. — Segredos de moça? — Quer lê-la? — perguntou Helena, apresentando-lha. Estácio fez-se vermelho e recusou com um gesto. Helena dobrou lentamente o papel e guardou-o na algibeira do vestido. A inocência não teria mais puro rosto; a hipocrisia não encontraria mais impassível2 máscara. Estácio contemplava-a, a um tempo envergonhado e suspeitoso; a carta fazia-lhe cócegas; o olhar ambicionava ser como o da Providência, que penetra nos mais íntimos refolhos do coração. Vieram, entretanto, dizer a Helena que D. Úrsula lhe pedia fosse ter com ela. Estácio ficou só. Uma vez só, entregou-se a um inquérito mental sobre a procedência da misteriosa missiva3. Um indício havia de que podia conter alguma cousa secreta; era o gesto com que ela a escondeu. Mas não podia ser de alguma antiga companheira do colégio, que lhe confiava segredos seus? Estácio abraçou com alvoroço essa hipótese. Depois, ocorreu-lhe que, ainda provindo de uma amiga, a carta podia tratar de algum idílio de colégio, em que Helena fosse protagonista, idílio vivo ou morto, página de esperança ou de saudade. Ainda nesse caso, que tinha ele com isso? [...] 10 Dona Úrsula não estava de todo boa, mas pôde almoçar à mesa comum. O sobrinho apareceu aborrecido, a sobrinha, triste; o diálogo foi mastigado como o almoço. (Helena, 2018.) 1 conchegar: ajeitar. 2 impassível: que não experimenta ou não denota exteriormente nenhuma emoção, sentimento ou perturbação; imperturbável. 3 missiva: carta.
Antítese: figura de retórica que consiste em realçar uma ideia pelo estabelecimento de contrastes ou oposição entre dois termos. O crítico literário Astrojildo Pereira foi quem primeiro percebeu os aspectos dialéticos da prosa machadiana. Ao longo de toda a sua obra de ficção, Machado de Assis irá cultivar esse jogo de imagens duplas, antitéticas, ora analisando o comportamento de seus personagens, ora tecendo reflexões sobre a condição humana. (Castelar de Carvalho. Dicionário de Machado de Assis, 2018. Adaptado.) Machado de Assis lança mão dessa figura de retórica no seguinte trecho:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

