Questões de Redação Oficial · CCP IFRN

Redação OficialVícios de linguagem e expressões a evitarCCP IFRN 2008

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Questão de Redação Oficial

Roberto Pompeu de Toledo 1. Uma pessoa humilde, ora pleiteando sua aposentadoria junto ao INSS, em São Paulo, recebeu a 2. seguinte “carta de exigências” da instituição. Os nomes, tanto da pessoa que pleiteia a aposentadoria quanto de 3. quem assina a carta, serão omitidos. O texto vai em sua conturbada e sofrida literalidade: 4. 5. “Para dar andamento ao processo do Benefício em referência, solicito-vos comparecer, no endereço: 6. Av. Santa Marina 1217, no horário de 07:00 às 15:00, para que as seguintes exigências sejam cumpridas: 7. - retirar a carteira profissional que se encontra em seu processo para que o empregador atualiza as 8. alterações de salarios em vista da ultima anotação foi 1990 e o salario de contribuição esta divergente da ultima 9. alteração 10. - recolher o 13 referente ao periodo de 1995 a 2004 que não foram recolhidos e 1 de ferias conforme 11. consta os meses a serem recolhidos na carteira profissional 12. Comunico-vos que vosso pedido de Benefício sera indeferido por desinteresse, se não comparecerdes 13. dentro de 10 dias a contar desta data. 14. Deveis apresentar esta carta no ato do comparecimento”. 15. 16. Impressiona o ucasse desferido na penúltima linha contra o contribuinte: “... o Benefício será indeferido 17. se não comparecerdes...” Mais impressionante ainda se torna quando se tem em conta que, antes de corridos 18. os dez dias, o INSS entrou em greve, parou tudo e que se danem os solicitantes, os pleiteantes e os queixosos. 19. Caso se queira mais uma dose de estupefação, acrescente-se que a carta foi emitida em maio, as exigências 20. foram cumpridas, uma vez terminada a greve, e até agora nada. O benefício ainda não foi concedido. Mas 21. releve-se. Não é esse o nosso ponto. Nem bem seriam as aflições infligidas à língua portuguesa, ao longo 22. daquelas poucas linhas em que o idioma de Camões caminha aos trancos e barrancos, como um veículo 23. desgovernado que despenca ladeira abaixo e bate um pára-lama aqui outro ali, cai num buraco, sofre bruscos 24. solavancos, corcoveia, raspa a porta do barranco, capota, desliza – para enfim se estatelar sem remédio contra 25. o último e insuperável obstáculo. 26. É este último obstáculo que nos interessa: o pronome “vós”. É verdade que a opção pelo vós, como 27. tudo o mais, vai no vai-da-valsa, e sofre um retrocesso quando se fala em “seu processo”, a alturas tantas, mas 28. sem dúvida é a da preferência do autor da carta, tanto assim que se afirma, triunfal, nas duas últimas linhas. 29. Que razão teria conduzido a tal preferência? Arrisquemos algumas hipóteses. 30. A primeira é a busca da elegância. O “vós” faz bonito em textos como o célebre soneto de Bilac: “Ora 31. (direis) ouvir estrelas! Certo/ Perdeste o senso! E eu vos direi no entanto/ Que, para ouvi-las, muitas vezes 32. desperto/ E abro as janelas pálido de espanto”. A segunda seria a intenção de mostrar-se educado, num 33. comunicado que afinal representa a palavra do próprio Estado brasileiro. Seria aconselhável, dada essa alta 34. responsabilidade, o recurso a um pronome que assinala respeito e deferência. Mas... será? Elegância? 35. Educação? São hipóteses que de saída sabemos pouco críveis. Tampouco se pode acreditar que o redator 36. tenha empregado o “vós” porque lhe sai natural. Para isso, precisaríamos supô-lo alguém que tem a segunda 37. pessoa do plural como ferramenta tão banal que é com ela que se comunica com a mulher em casa, os colegas 38. de trabalho, os vendedores na feira. Não, não é possível. 39. Examinemos de novo o documento. Pensemos nele no contexto da relação do Estado com os 40. cidadãos, no Brasil. Essa relação, segundo expôs recentemente a cientista política Lucia Hippolito, é de 41. desconfiança. “Para a burocracia”, escreveu ela, “o cidadão tem sempre culpa, está sempre devendo, está 42. sempre na obrigação de provar sua inocência com mais um documento, mais uma firma reconhecida, mais uma 43. certidão autenticada em cartório.” Uma suspeita começa a se firmar. A crase não foi feita para humilhar 44. ninguém, mas o “vós” foi. O desejo de acuar o cidadão, de encostar-lhe no peito a ponta da espada, de fazê-lo 45. sentir-se pequeno, diante da majestade do Estado, foi esse, sim, só pode ter sido esse, o motivo pelo qual o 46. redator da carta escolheu o “vós”. 47. O “vós”, tal qual se apresenta no texto, ressoa amedrontador como um castigo. Humilhar? Não, ainda é 48. pouco. A intenção é aterrorizar. Volte-se ao texto: “Se não comparecerdes...” Isso é muito mais assustador do 49. que “se você não comparecer”, ou “se o senhor não comparecer”. Soa como decreto vindo das alturas 2 50. inatingíveis, dos príncipes incontrastáveis, do céu. Faz tremer como um trovão. E esse “vós” é tristemente 51. significativo do Brasil. Simboliza o massacre cotidiano a que o Estado submete os cidadãos, os mais humildes 52. em primeiro lugar. Entra governo e sai governo, entra década e sai década, essa é uma situação que 53. permanece, inelutável como fenômeno da natureza. O presidente, os ministros, as CPIs, estes estão sempre 54. preocupados com outras coisas. Cá em baixo, a relação entre o Estado e o cidadão comum sempre foi, e 55. continua sendo, feita de pequenas atrocidades. 56. 57. ucasse (s.m.): sentença

Ao se analisar o trecho “- recolher o 13 referente ao período de 1995 a 2004 que não foram recolhidos e 1 de ferias conforme consta os meses a serem recolhidos na carteira profissional”, é correto afirmar que nele há

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