Língua PortuguesaAdvérbio e locução adverbialNUCEPE UESPI 2013
SESAPI
Questão de Língua Portuguesa
A (re)humanização da medicina Em sua origem, a medicina ocidental era uma ciência essencialmente humanística. Suas raízes se assentavam no solo da filosofia da natureza, e seu sistema teórico partia de uma visão holística que entendia o homem como ser dotado de corpo e espírito. As causas das doenças, portanto, deveriam ser buscadas não apenas no órgão ou no organismo enfermo, mas também – e principalmente – no que há de essencialmente humano no homem: a alma, esse componente espiritual que distingue o homem dos outros organismos vivos do planeta. O médico clássico, portanto, era, antes de tudo, um filósofo; um conhecedor das leis da natureza e da alma humana. Esse foi o modelo, a concepção de médico e de medicina que se perpetuou historicamente – obviamente não sem mudanças, rupturas e transformações – no Ocidente até bem pouco tempo atrás. A Antiguidade latina herdaria a medicina hipocrática e pouco lhe acrescentaria. Na Idade Média, apesar das grandes transformações causadas pelas invasões bárbaras e pela difusão do Cristianismo e do Islamismo, todo o pensamento filosófico e científico ocidental e oriental continuou, essencialmente, fundamentado no patrimônio clássico. É certo que no Renascimento, no alvorecer da Modernidade, muitos dos postulados clássicos começaram a ser revistos, graças ao espírito investigativo que caracterizou o período. Isso, entretanto, não afetou a concepção filosófica da medicina, que, muito mais agora do que na Idade Média, se afirmava como uma ciência essencialmente humanística. Mesmo a “Nova Ciência” do século XVII, que concluiu a obra de desconstrução do conhecimento médico clássico-escolástico, e o Iluminismo, que estabeleceu as bases do método científico contemporâneo, não deixaram de reafirmar o caráter amplamente humanístico da medicina, vista não apenas como ciência, mas também como arte. Apesar do rápido desenvolvimento do chamado método experimental – ou simplesmente “método científico” – durante o século XIX, a visão humanística da medicina continuou a dominar diversas gerações de médicos em todo o mundo. Durante essa época forjou-se a imagem romântica do médico sábio, conhecedor dos avanços científicos no campo da clínica, da patologia e da farmacologia, mas também amante da literatura, da filosofia e da história. Paradoxalmente, o mesmo século XIX, que assistiu à consagração da moderna medicina humanística em sua versão romântica, marcou também o início da sua crise. Principalmente a partir da segunda metade desse século, as importantes descobertas em campos como o da microbiologia desencadearam uma verdadeira revolução no terreno da patologia, gerando profundas transformações na ciência médica como um todo. O desenvolvimento das análises laboratoriais e de outros métodos clínicos incrementou consideravelmente a formulação dos diagnósticos, e o aparecimento de medicamentos (como a penicilina) começou a propiciar aos médicos uma eficácia na cura e um domínio sobre as doenças sem precedentes na história. Assistia-se a um verdadeiro “milagre” e, ao se iniciar o século XX, tudo dava a entender que a medicina estava prestes a atingir a sua idade de ouro, o seu estágio de “ciência exata”. Os enormes progressos alcançados graças às ciências físicas, químicas e biológicas, aliados aos desenvolvimentos tecnológicos, foram, cada vez mais, redirecionando a formação e a atuação do médico, modificando também sua escala de valores. À medida que o prestígio das ciências experimentais foi crescendo, o das ciências humanas esvanecia-se no meio médico. História, literatura e filosofia, apesar de serem ciências importantes, para o médico pouco podiam acrescentar, agora que as novas descobertas e métodos efetivamente científicos abriam novas dimensões. As descobertas ainda mais surpreendentes que ocorreram nas últimas décadas, principalmente no âmbito da biologia celular e molecular, que ultimamente têm culminado nas pesquisas do genoma, parecem ter definitivamente confirmado a ideia de que a chave de todo o conhecimento médico está nas ciências experimentais. Anuncia-se para dentro em breve o descobrimento das verdadeiras causas de todas ou pelo menos quase todas as doenças que flagelam a humanidade. E, dessa forma, através de manipulações em nível genético, assim como por meio de precisos e eficazes tratamentos preventivos, poder-se-á prever, reverter e principalmente prevenir grande parte das doenças que nos espreitam, como o câncer, as deficiências imunológicas ou os distúrbios cardiovasculares. Nessa perspectiva, as ciências humanas não têm mais nada a dizer à medicina, a não ser louvar as suas lutas e conquistas e relatar a sua tremenda evolução. De fato, todo esse processo de supervalorização das ciências biológicas, da superespecialização e dos meios tecnológicos que acompanharam o desenvolvimento da medicina nessas últimas décadas trouxe como consequência mais visível a “desumanização” do médico. Ele foi se transformando cada vez mais em um técnico, um especialista, profundo conhecedor de exames complexos, precisos e especializados, porém, em muitos casos, ignorante dos aspectos humanos presentes no paciente que assiste. E isso não apenas por força das exigências de uma formação cada vez mais especializada, mas também em função das transformações nas condições sociais de trabalho que tenderam a proletarizar o médico, restringindo barbaramente a disponibilidade deste para o contato com o paciente, assim como para a reflexão e a formação mais abrangente. A crença na panaceia científico-tecnológica da atualidade por um lado impulsiona a evolução do conhecimento, mas por outro o bloqueia, hipertrofiando certas dimensões da verdade em detrimento de outras. Certamente, mesmo depois de totalmente desvendado o código genético e desenvolvidas as mais sofisticadas técnicas de diagnóstico e prognóstico clínico, os médicos continuarão enfrentando limitações e dificuldades que exigirão mais do que o conhecimento científico-tecnológico para que possam ser superadas. E isso é uma realidade que já se experimenta, muitas vezes de forma traumática e desalentadora, nos dias de hoje. Sem dúvida há uma grande necessidade de se “reumanizar” a medicina. De se desenvolver e fornecer recursos humanísticos para o processo de formação e de atuação do médico e dos cientistas da saúde em geral. As ciências humanísticas têm muito a contribuir para o desenvolvimento das ciências da saúde e da medicina em particular. Mas tal contribuição só pode se efetivar quando médicos, cientistas da saúde, historiadores, filósofos, antropólogos, psicólogos, literatos, pedagogos e alunos perceberem a necessidade de, sem “pré-conceitos” e com o espírito aberto, se constituírem canais comuns de estudo, discussão e troca de experiências. Nunca como hoje se faz tão necessária a reflexão histórico-filosófica para que se possa reumanizar a medicina e as ciências da saúde em geral. Dante MC Gallian. Disponível em: http://www.unifesp.br/dpsiq/polbr/ppm/especial02a.htm. Acesso em 20/09/2013. Adaptado.
“Sem dúvida há uma grande necessidade de se “reumanizar” a medicina.” (8º §). Neste trecho, a expressão destacada, que sinaliza o caráter categórico da afirmação feita pelo autor, equivale semanticamente a:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

