Questões de Língua Portuguesa · COPS UFLA

Língua PortuguesaInterpretação de textosCOPS UFLA 2016

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Questão de Língua Portuguesa

1 O avião estava cheio. Eu no fundão. Duas poltronas atrás de mim, uma criança começou a chorar. Abriu o 2 berreiro. Ninguém disse uma palavra, fazer o que quando uma criança chora? A mãe, em vez de tentar acalmar o 3 filho, reclamou em voz alta. 4 – Criança chora mesmo, e daí? Vocês ficam me olhando, mas o que posso fazer? Criança é assim: chora. 5 Tudo bem. Criança chora. Mas a gente ouve. Ninguém havia reclamado do incômodo em voz alta. Suponho 6 que algumas pessoas tenham olhado para a mãe como se pedindo que fizesse alguma coisa. Em vez de acalmar o 7 filho, ela brigou. Sinceramente, nem olhar a gente pode? E mais sinceramente ainda: como será a educação desse 8 menino, se a mãe prefere reclamar com quem se sente incomodado com o choro, no lugar de acalmar o filho? Vai 9 ter noção de limite? Ou se transformará num briguento, achando que tem direito a tudo? No caso dos aviões, eu 10 acho que há uma irresponsabilidade enorme dos pais. Como podem expor um bebê de colo a viagens aéreas? Sim, 11 existem os casos de extrema necessidade. Mas não são a maioria. Um bebê sente dor nos ouvidos, talvez até mais 12 intensa que nós. Quando eu sinto, tento mascar chiclete, chupar bala, ou pelo menos, racionalmente, posso 13 entender o que está acontecendo e suportar. Um bebê não. De repente, vem aquela dor horrível, ele não sabe o 14 porquê. Chora. Grita. Os outros passageiros têm de suportar o barulho, ficam até com dor de cabeça. Mas um bebê é 15 um bebê, e todos temos de entender. E os pais? Como obrigam a criança a suportar essa dor? E os passageiros, os 16 gritos? Eu já vim da Turquia certa vez, em uma viagem que durou o dia todo, com duas crianças pequenas logo atrás 17 de mim. Classe executiva. Gritaram e choraram quase a viagem toda. E não têm razão? Como suportariam passar o 18 dia todo sentados, cintos afivelados? Os pais eram pessoas simpáticas. Tinham ido a turismo. É certo deixar os filhos 19 presos um dia inteiro? É justo enlouquecer os outros passageiros? Claro que criança tem o direito de viajar. Mas é 20 preciso escolher o roteiro mais adequado. 21 Certa vez fui a uma pousada na serra carioca. Deliciosa. Um diretor de cinema, mais tarde, comentou: 22 – Eu ia sempre lá. Mas eu e minha mulher cometemos um crime. Tivemos uma filha. Na pousada não 23 aceitam crianças. 24 É fato. Já existem hotéis e pousadas que não hospedam crianças. Muita gente acha um horror. Por outro 25 lado, o problema não está nos pais? Em qualquer lugar onde os pais estejam com os filhos, agem como se eles 26 tivessem direito a tudo. Podem correr, gritar. Dá para ler um livro embaixo de uma árvore, no alto da serra, com 27 crianças correndo e gritando? E com os pais apreciando a algazarra tranquilamente, sem se importar com os outros 28 hóspedes? 29 Eu poderia citar outros exemplos. Visitas que chegam com filhos que pulam no sofá. Ou brincam com algum 30 objeto de estimação. Que batem no prato e dizem que não gostam da comida, em restaurantes. (E com razão. Agora 31 criança tem de apreciar sashimi quando quer hambúrguer?) O problema está nos pais. 32 Muitos foram reprimidos quando crianças. Antes era assim: podia, não podia. A educação tradicional 33 impunha limites, às vezes de forma rígida. Eu mesmo acredito que o excesso de rigidez é péssimo. Por outro lado, 3 34 essas crianças vão crescer, e terão de viver com normas. A vida é cheia de isso pode e aquilo não pode. O respeito ao 35 outro implica entender os próprios limites. Senão é aquilo: todo mundo querendo furar fila, tirando vantagem. O 36 fato é que muitos dos pais modernos, como a mulher que esbravejou no avião, acham que criança pode tudo. Já Página 37 37 conversei com professoras, segundo as quais, hoje, boa parte dos pais delega a educação básica dos filhos à escola. 38 Há casos, extremos, em que a professora tem de explicar a importância de escovar os dentes todos os dias. Não 39 estou falando de famílias sem condições financeiras, no caso. Mas também de gente bem de vida, para quem é mais 40 fácil não discutir deveres e obrigações com os filhos. Deixar rolar. 41 Mas um dia os filhos terão de aprender a viver em sociedade. Podem contar com a mãe ou o pai para chorar 42 as pitangas se forem demitidos. Um ombro sempre é bom. Mas só terão empregos e oportunidades se souberem o 43 que são limites, deveres, obrigações. A educação extremamente liberal é atraente. Principalmente, porque 44 confortável para os pais. Mas fica a pergunta: se os pais não dão noção de limites, como os filhos um dia vão ter?

Do fragmento: “A vida é cheia de isso pode e aquilo não pode.” (Linha 34) depreende-se que a afirmação referese a:

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