Questões de Língua Portuguesa · COPESE UFPI

Língua PortuguesaOrações subordinadas substantivasCOPESE UFPI 2016

Pref Bom Jesus (PI)

Questão de Língua Portuguesa

A cobertura das tragédias e a consequente indignação seletiva 01 Nos últimos dias, diversas tragédias assolaram o mundo. Aqueles que, como nós, não vivenciaram os 02 acontecimentos diretamente, tomaram conhecimento deles a partir do recorte e da construção midiática dos 03 fatos: dos atentados em Paris, passando pelo crime ambiental em Minas Gerais e a chacina em Fortaleza. 04 A história se repete: um desastre em algum lugar do mundo gera manifestações de solidariedade, 05 hashtags e avatares nas redes sociais. De imediato, um grupo reage lembrando outros casos de atentados, 06 mortos e desabrigados em lugares em guerra, famílias vivendo em situações insalubres. 07 Casos, às vezes, acontecidos em dias muito próximos. ―Indignação seletiva!‖ — acusam de um lado. 08 ―Minha indignação não é seletiva!‖ — respondem de outro. ―Somos todos (e todas) Paris, Síria, Mariana, 09 Fortaleza‖. Não, não somos. Somos diversos, com diversas experiências e bagagens afetivas e culturais, que 10 influenciam na forma como reagimos a cada tragédia. Parte significativa dessa bagagem, do conhecimento que 11 temos dos lugares, povos e tragédias vem de um lugar comum: os grandes meios de comunicação. 12 Não se trata, aqui, de pesar qual fato é mais doloroso ou digno de cobertura ou solidariedade. Todas as 13 vidas ceifadas, assim como toda destruição e violência, deve nos indignar e atravessar profundamente, inclusive 14 aquelas que ganham, quando muito, um mínimo espaço nas páginas policiais. Mas, para compreender como a 15 seleção dos acontecimentos, a abordagem e a comoção gerada por eles são feitas, precisamos desnudar o 16 modus operandi dos meios de comunicação. E perceber que não é difícil concluir que a violência já começa na 17 invisibilidade imposta aos que não são considerados relevantes. 18 A decisão do que é e do que não é notícia, além de que notícia é mais importante que outra, é baseada 19 em diversos critérios, sistematizados por diferentes autores, ensinados nas escolas de jornalismo e incorporados 20 ao cotidiano das redações. Apenas para usar como exemplo o elenco mais conciso deles, dá-se mais relevância 21 aos acontecimentos de acordo com: novidade, proximidade geográfica, proeminência e negativismo. 22 Ou seja, o que acontece hoje é uma notícia mais importante do que o que se passou anteontem; um jornal 23 do Ceará colocará em destaque notícias da periferia de Fortaleza, não de Paris; porém, caso morra um camelô 24 na feira da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, ou a apresentadora Angélica sofra um acidente, O Globo dará a 25 manchete para ela; uma má notícia ganha mais destaque que um acontecimento positivo. 26 Esses critérios obviamente não são naturais. Foram pensados a partir do que toca mais o público, sim, 27 mas também estão fortemente ligados a valores econômicos e culturais. A vida de um parisiense vale mais do 28 que a de um sírio? Pessoalmente podemos achar que não — e defendemos que não. Para a imprensa brasileira 29 tradicional, no entanto, a resposta é sim. 30 Ao nos apresentar o mundo que nem sempre conhecemos de perto — ou, mesmo quando o fazemos, 31 estamos já atravessados por todas as informações e imagens que nos chegaram de forma midiatizada —, a 32 mídia também colabora para que tenhamos mais familiaridade com certos povos e lugares. Cenários que já 33 vimos tanto no cinema e na televisão. 34 Na geografia dos afetos, o Rio de Janeiro é muito mais próximo de Paris do que de Fortaleza. Além disso, 35 o tipo de tragédia que assolou Fortaleza na última semana, com a chacina de doze pessoas — em especial 36 jovens negros —, é a tragédia cotidiana nas periferias, morros e favelas. O critério da novidade aí também se 37 esvazia. 38 E o que é uma tragédia passa a ser banal, sem merecer qualquer destaque. Até mesmo o lugar social dos 39 envolvidos é usado para justificar ou não suas mortes. Ter ou não passagem pela polícia tornou-se, assim, uma 40 das primeiras perguntas feitas e reportadas na apuração dos assassinatos. Afinal, a tão propagada narrativa 41 policialesca tem fixado na sociedade que ―bandido bom é bandido morto‖. Foi assim em Cabula, em Salvador, e 42 tem sido assim agora, no Ceará. 43 Mas a própria lógica da noticiabilidade é subvertida quando segui-la prejudica interesses políticos e 44 econômicos dos veículos de comunicação. O caso do rompimento da barragem do Rio Doce, obra da Samarco, 45 controlada pela Vale, em Mariana/MG, é emblemático. Novidade, proximidade, proeminência, negatividade. São 46 dezenas de mortos e desabrigados, cidadãs e cidadãos sem água potável e um prejuízo humano e ambiental 47 cujas consequências afetarão por anos uma extensão territorial significativa de nosso país. 48 O crime, no entanto, que tem responsáveis muito claros, vem sendo reportado como desastre ambiental. 49 Tampouco se discute a fundo a questão das privatizações e da responsabilidade do poder público no 50 acompanhamento das ações das mineradoras. 51 A própria presidenta da República só foi à região, sobrevoando a área de helicóptero, uma semana depois 52 do rompimento da barragem. O fato de nossa autoridade política não ter dado a devida importância ao 53 acontecimento em Minas sem dúvida contribui para o não-destaque nas pautas dos telejornais e veículos 54 impressos. Mas chamar a atenção de autoridades e cobrar a responsabilização dos envolvidos também é papel 55 da imprensa, por meio da definição do que ganha e do que não ganha as manchetes. 56 [...] 57 Por isso, em vez de apontarmos o dedo uns aos outros, principalmente nas redes sociais, acusando-nos 58 mutuamente de indignação seletiva, cabe entender como é construída tal seleção no nosso próprio imaginário. 2 | P á g i n a 59 Qual o papel da mídia nesse processo, mesmo entre quem busca coberturas e veículos alternativos ao 60 mainstream. 61 Quais as consequências da grande concentração num setor que deveria ser regido pela pluralidade e pela 62 diversidade de ideias, como preza qualquer boa democracia. E a quem serve a fragmentação da nossa 63 indignação, que tem como pano de fundo, por mais clichê que seja a afirmação, um sistema mundial de 64 opressões que pune e invisibiliza ―minorias‖ sociais do Ocidente ao Oriente, nas grandes cidades, periferias, 65 morros e favelas; no campo e nas reservas indígenas e ambientais; na esquina da nossa casa. (MOURÃO, Mônica; MARTINS, Helena. Mariana, Síria, Fortaleza, Paris. A cobertura das tragédias e a consequente indignação seletiva, Intervozes, Carta Capital, 16 nov. 2015. Com alterações e supressões. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/blogs/intervozes/a-cobertura-das-tragedias-e-a-consequente-indignacao- seletiva-4432.html>. Acesso em: 04 dez. 2015.)

A oração ―[...] para que tenhamos mais familiaridade com certos povos e lugares‖ (linha 32) exerce a função sintática, na frase em que ocorre, de:

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