Língua PortuguesaEstratégias e tipos de argumentoCOPS UFLA 2016
UFLA
Questão de Língua Portuguesa
1 Algumas frases feitas ouvidas desde sempre ficam gravadas em nós como verdades. Amadurecendo, a gente 2 vai se libertando desses mitos, ou compreende que só algumas vezes são verdade. 3 Uma delas é “Querer é poder”, o que cedo constatamos não ser bem assim... Outra poderia ser “A dor nos 4 torna melhores”, estranha apologia do sofrimento. O que logo veremos que a muitos apenas torna amargos, eternas 5 vítimas, queixosos, azedos, revoltados. Mais um desses ditos seria “O trabalho enobrece”, coisa que vou questionar 6 aqui. 7 Trabalhar pode enobrecer, mas não sempre, não necessariamente: depende de inúmeras condições, então 8 não é o trabalho em si, mas um conjunto de situações de cada indivíduo ou grupo. 9 Assim como a frustração de não poder tudo o que queremos, mesmo com muita luta, e de nem sempre nos 10 tornarmos melhores com a dor, o trabalho pode nos desmoralizar, pode nos embrutecer. 11 Como? perguntarão os eternos indignados. 12 Simplesmente porque só nos dignifica aquilo que nos compensa, nos dá alegria, sentido de vida e alguma 13 importância, ainda que seja a de colocar corretamente uma pecinha de engrenagem para que um carro, um avião, 14 um aparelho cirúrgico ou uma engrenagem imensa funcione direito, salvando vidas, trazendo progresso, enfim, 15 melhorando alguma coisa. 16 O bom trabalho é aquele para o qual vamos todas as manhãs (ou noites) com disposição, mesmo 17 enfrentando agruras como condução péssima ou atrasada, distâncias, cansaço. Mas saberemos que aquela oficina, 18 escritório, mina, avião, cozinha ou rua é um lugar nosso, à espera da nossa presença, nossa ação, nossa 19 colaboração. Temos um lugar no vasto mundo, mesmo na mais modesta atividade: nenhuma é desimportante desde 20 que honesta. Assim, embora em outra dimensão, o local de trabalho, o emprego, se tornam um pouco a nossa casa; 21 e os colegas passam a ser quase uma outra família, apesar de diferenças e desentendimentos – como em qualquer 22 família. 23 Estarei sendo idealista, romântica? Não creio. Estou, sim, descrevendo uma situação ideal, mas é a que 24 temos que desejar para todo mundo. Pois um trabalho indigno, mal recompensado, mal gerido, no qual não somos 25 respeitados e apreciados, nos humilha e nos faz adoecer ainda que seja na alma. E é da alma, da psique, que se trata 26 quando falamos de nós humanos – hoje se acredita cada vez mais que também os outros animais têm uma psique 27 que deve ser levada em conta. Um simples animal doméstico pode ser mais agressivo ou mais afetuoso conforme o 28 ambiente em que está e foi criado. 29 Aos poucos, evoluímos para o trabalho instituído com operários ou trabalhadores de qualquer setor e 30 hierarquia, com alguns direitos, cada vez mais aperfeiçoados. Temos sindicatos, temos conselhos de classe, temos 31 leis, temos, enfim, algo que se aproxima do melhor possível para que o trabalho nos dignifique. 32 Em boa parte do mundo as carências também são enormes. Mesmo em grandes cidades organizadas, onde 33 as leis imperam mais e melhor, diariamente assistimos a multidões espremidas em conduções inaceitáveis, ônibus, 34 trens, até caminhões (onde vão na boleia), quase como animais. Ou melhor: como alguns animais, pois muitos, 35 como cavalos nobres, recebem tratamento inacreditavelmente melhor do que muitos trabalhadores. Porém, temos 36 de ter um laivo de otimismo. Temos direitos, podemos reclamar, processar, fazer manifestações, recorrer aos 37 sindicatos. 38 Mesmo em condições boas o trabalho nem sempre nos gratifica, portanto, não nos enobrece: por ser mal 39 pago, por ser algo para o qual não nascemos para fazer, por ser demasiado mecânico e desinteressante, por nos 40 obrigar a grandes sacrifícios físicos, enfim, talvez porque sonhemos demais, além de nossa real possibilidade. 41 O que fazer então? É preciso atendimento humano, psicológico, interessado, a cada operário ou funcionário 42 de qualquer escalão, para que ele se conscientize de que o que deseja é possível e pode tentar mudar, ou de que seu 43 sonho é irreal, e adaptar-se à realidade pode ser a melhor saída. 44 Nenhuma condição, nem mesmo alto salário ou localização ideal, é tão importante quanto se sentir 1 45 necessário, ser apreciado, ainda que seja por colocar diariamente centenas de vezes o mesmo parafuso no mesmo 46 lugar da mesma engrenagem. 47 Página 47 Pois, sem esse mínimo objeto bem posto, alguma coisa há de falhar, e cabe ao empregador, no meio de 48 tantas teorias, setores especializados, recursos humanos e psicólogos, em vez de tentar burlar as leis, aperfeiçoá-las, 49 ir além da letra fria, e dar a quem trabalha a sensação essencial de que o seu trabalho, seja qual for, é importante e 50 o está enobrecendo. 51 E para isso, mesmo cada dia dando um passo em frente, parece que ainda nos falta um longo caminho.
Em um texto argumentativo, o produtor explora estratégias a fim de construir uma argumentação eficiente. A autora utiliza da estratégia discursiva de não se comprometer com a afirmação realizada. A alternativa em que essa estratégia NÃO se faz presente é:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

