Língua PortuguesaInterpretação de textosINSTITUTO MAIS 2024
Pref Diadema
Questão de Língua Portuguesa
Passear por cemitérios é perceber quão relativa é a noção de posteridade Eu estava distraída, catando um ponto favorável para o sinal do celular. Atrás de alguma informação sobre os vultos históricos entalhados a ouro no mais rico mármore daqueles jazigos. Então percebi, ao cair do sol, totalmente sozinha, que havia sido trancada no Cemitério Monumental de Milão. Não fiquei apavorada. Quer dizer: não diante de fantasmas tão bem nascidos e morridos. Como filha temporã, a vida me preparou para a morte desde cedo. E com seu implacável senso de humor, fez de Tia Neném minha primeira defunta. Eu, nove. Ela, 89. Por apreciar o tempo que me resta na Terra, tomei gosto por necrópoles. Acho poético observar os pontos finais de outras histórias. Viúvas "transidas" pela dor, espanando moscas que pairam sobre o ex-vivo enquanto riem baixinho de uma anedota contada à beira do caixão. Afinal, ninguém é triste o tempo todo. Já vi até falecido com sorriso embalsamado. Gosto dos canteiros com flores, sobretudo de plástico — imorredouras em sua praticidade quase gaiata. Vira e mexe faço a conta entre anos de nascimento e passamento. O coração às vezes fraqueja. "Nossa, tão criança ...". Depois que o Jesus Cristo de bronze foi afanado da sepultura do meu avô, o "r" do seu nome apareceu solto. Novamente ao celular, "googlando" que tipo de cola seria capaz de manter unidas as letras e as criaturas ainda viventes da família, notei algo. No túmulo vizinho, de tão frouxos, os caracteres metálicos haviam formado um caça-palavras que converteu "deus" em "desuso". Imagem que me voltou no dia do enterro mais humilde a que compareci. Na rua da Verdade, o cemitério carioca de Santa Cruz — a sete palmos do mais perfeito simbolismo — descortina um campo-santo de covas rasas a se perder de vista, dotadas apenas de cruzes e números. Nenhum sobrenome, letra, ouro ou mármore. Só fui libertada do cemitério milanês quando um vigia assustado escutou meus gritos num impecável italiano macarrônico. No que o grandioso portão se fechou às minhas costas, também refleti sobre o desuso de deuses e a noção relativa de posteridade. Logo, logo estaremos mortos do mesmo jeitinho. Agora, "que" restemos em paz. (Bia Braune. Adaptado).
De acordo com a leitura do texto, ser filha temporã preparou a autora para a morte porque
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.
