Língua PortuguesaSignificação de palavras e expressões em contextoIbest 2025
CRM DF
Questão de Língua Portuguesa
1 Tendo irrompido na capital de certo país uma epidemia de moléstia terrível que matava milhares de pessoas por dia, a junta do governo se viu obrigada a 4 fazer o serviço compulsório de coveiros e requisitar palácios para hospitais. Um médico modesto, mas sábio, passado o flagelo, saiu de sua modéstia e 7 escreveu num jornal ou numa revista de pouca importância um artigo simples, claro, sem arrebiques de péssima literatura pernóstica, sem fumaças de 10 ciência e de clínica, lembrando a conveniência de se criarem mais hospitais públicos e situá-los em diversas zonas da cidade, para sempre poderem eles 13 atender à população eficazmente, nas épocas normais e anormais. Pouca gente leu o artigo do honesto facultativo, 16 mas todos os seus colegas o fizeram, sem que, entretanto, nada dissessem logo. Passa-se um mês, quando já todos estavam 19 esquecidos das palavras do bom esculápio sem trombetas, bulha e matinada, apareceu no principal jornal da cidade um artigo desmedido, escrito com o 22 bolor de vocábulos antigos, recheado de citações e exemplos de outras terras e termos híbridos do grego e do hebraico, repetindo as sugestões do velho prático 25 que lembrara a criação de hospitais semeados pela capital do país. Apesar do assunto ser o mesmo, sem 28 discrepância alguma, o nome de quem aventou a ideia pela primeira vez, cujo nome era Mendonça, não foi citado. 31 Na câmara, um outro facultativo, que era deputado muito famoso pela sua clínica nas altas rodas da cidade, apresentou um projeto, calcado nas 34 ideias do doutor Mendonça, mas não o citou, fazendo isso várias vezes com o doutor plagiário daquele, que se chamava Cavalcante. 37 Os jornais, pelos seus cronistas, gabaram muito o projeto e, nas suas crônicas e tópicos, não se amedrontavam em repetir os nomes do doutor 40 Cavalcante e do deputado doutor Azevedo. Toda a gente ficou crente de que a ideia era do doutor Cavalcante, e essa convicção ainda se tornou 43 mais forte quando apareceu uma crônica do doutor Juventa num popular jornal noturno, atribuindo toda a glória da iniciativa aos seus dois colegas, Cavalcante 46 e Azevedo. Esse doutor Juventa era tido em grande conta, não por ser verdadeiramente grande em qualquer 49 coisa, apesar de ser médico, advogado, poeta, literato, político, estrategista, etc.; era tido em grande conta por ser um homem feliz — menos com os seus 52 doentes, diziam os maldosos. Nada sabemos disso; e o certo, porém, é que o artigo enterrou para sempre o nome do simplório 55 doutor Mendonça. Assim são as coisas naquele país... Lima Barreto. O pai da ideia. In: Vida urbana. São Paulo: Brasiliense, 1956 (adaptado).
Entende-se do desenvolvimento do texto que o trecho “passado o flagelo” (linha 6) expressa
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

