Língua PortuguesaInterpretação de textosIBAM 2023
Pref Bertioga
Questão de Língua Portuguesa
A IDADE DO DINHEIRO E DA DOR A crítica ao novo-rico é antiga. Aparece no texto do Satíricon, atribuído a Petrônio, especialmente no episódio da ceia de Trimalcião. O tema ecoa no Burguês Fidalgo, de Molière. É um tema universal. Não preciso relembrar os itens centrais do ataque. Ostentação é coisa de dinheiro recente. Dinheiro antigo é discreto. A cor do novo capital é o dourado; sua urbe é Miami. O dinheiro novo tem artistas de eleição que não convém identificar. O mais interessante é que os ataques aos "novos-ricos" não saem apenas de aristocracias tradicionais, todavia de classes menos favorecidas. Desde muito tempo, alguns membros do dito "povo" aceitam (em parte) que exista um grupo de elite cujo refinamento se perca das brumas do tempo. Apesar disso, se houver alguém que até ontem pegava ônibus ao seu lado, ou que morava em bairro com CEP mais popular... Ah! Este será ironizado e atacado. A recíproca é verdadeira, pois, quase sempre, o dinheiro recente é mais agressivo com grupos populares do que aqueles com ancestrais na nobreza do Segundo Reinado. Interessante notar que, sob as capas e pátinas douradas, há pontos de proximidade. O que marca uma elite é seu acesso exclusivo a alguns benefícios. O novo-rico compra coisas caras e exibe-as como um sinal de distinção. "Este é meu carro de luxo, estas são minhas joias, e meu cachorrinho come tais produtos. Tenho o que você não tem, porque possui coisas muito caras e exclusivas." O chamado old money seria muito diferente? De alguma forma, não. A tradição, pela exclusividade, também busca se distinguir da plebe. Se o grupo "emergente" gasta rios de dinheiro para criar ilhas especiais, o tradicional invoca a história da sua ilha. Então, ao contrário do primeiro, a tradição não gasta um apartamento de luxo para comprar uma pintura colorida da moda e colocá-la na sala de jantar, informando o preço aos convidados. "Se minha fortuna tem mais de cem anos, o quadro de que eu me orgulho é um Di Cavalcanti, com o rosto de Vovó na fazenda." Isso, um artista de primeira linha ter pintado minha família, jamais será comum, porque o capital pode dourar tudo, porém esbarrará na história. A tradição moral católica ensinava que existiam pecados por classe social. Os ricos? Poderiam ser condenados por avareza. Os pobres? Por inveja. Nos dois casos, estava asfaltada a via para o Inferno. Compilado. Leandro Karnal. Disponível em [https://www.estadao.com.br/cultura/leandro-karnal/a-idade-do-dinheiro-e-da-dor/]. Publicado em 23.4.23 e consultado em 12.5.2023.
Sobre o texto foram feitas as asserções a seguir. I. "Aparece no texto do Satíricon, atribuído a Petrônio, especialmente no episódio da ceia de Trimalcião. O tema ecoa no Burguês Fidalgo" – no trecho em questão ao afirmar que o "tema ecoa no Burguês Fidalgo", Leandro Karnal, em linguagem figurada, deixa claro aos leitores que a crítica ao novo rico está presente na obra Satíricon, mas não em Burguês Fidalgo. II. Segundo o autor, difere os chamados "novos ricos" dos "endinheirados por tradição", o fato de o desejo de ostentação, no segundo grupo, ao contrário do primeiro, ser excessivamente latente. III. Inferimos da leitura do texto que a população de baixa renda (a que o autor chama "povo"), aceita com naturalidade quando um igual, que até ontem pegava ônibus ao seu lado, enriquece; não admite, contudo, que um grupo de elite, de refinamento que atravessa gerações, tente atacar sua dignidade com gestos de arrogância ou desprezo. IV. No último parágrafo do texto depreendemos a mensagem no sentido de que, sob a ótica da tradição moral católica, ricos e pobres – ambos não têm salvação. São conclusões possíveis da leitura do texto o afirmado em:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

