Questões de Língua Portuguesa · PGP UFV

Língua PortuguesaVozes verbaisPGP UFV 2014

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Questão de Língua Portuguesa

Texto 1 Com o pé no passado por Mário Eduardo Viaro § 1 Há etimologias e etimologias. As soluções etimológicas, com as quais estamos acostumados, usam um método tão antigo quanto a sua própria história. Em repouso, o "investigador" da origem vocabular se vale da semelhança sonora entre palavras para estabelecer relações históricas que nunca houve. § 2 Antológica é a fala do personagem Gus Portokalos (Michael Constantine) no filme Casamento Grego (em inglês: My big fat Greek wedding, de Joe Wick, 2002), que afirma serem todas as palavras derivadas do grego. Indagado sobre a palavra japonesa kimono, após pensar um pouco, "acha a solução", por meio de malabarismos argumentativos em seu inglês arrevesado: "Kimono, kimono, kimono. Ha! Of course! Kimono is come from the Greek word kheimona, is mean 'winter'. So, what do you wear in the wintertime to stay warm? A robe. You see: robe, kimono. There you go!" ("Quimono, quimono, quimono. Ah! Claro! Quimono vem do grego kheimona, significa 'inverno'. Pois bem, o que é que você usa no inverno para ficar aquecido? Um roupão. Aí está: roupão, quimono. Pronto!"). Chutes platônicos § 3 Autoengano ou impostura? Etimologia e imaginação nem sempre fazem um bom casamento. De tão acostumados, parece-nos lícito fazer isso com a língua, mas se tratássemos só de dados históricos diríamos que foi criada uma lenda. § 4 Alguém pode imaginar empréstimos improváveis, contatos linguísticos irreais e propagações lexicais imaginárias da mesma forma que pode narrar sobre reis que nunca existiram, povos que jamais pisaram a Terra, situações que não ocorreram, diálogos que nunca foram proferidos. Fazendo isso, porém, criaria uma boa (ou má) obra de ficção: um conto, um filme, uma peça de teatro. Não é o mesmo que criar um fato verossímil ancorado no tempo, a menos que estejamos absortos na nossa mauvaise (termo criado pelo existencialismo de Sartre e Beauvoir para o autoengano, que não se traduz perfeitamente por "má-fé"). Semelhanças § 5 Platão costumava fazer isso, criando e reciclando lendas e, desse modo, imaginou o formato esférico e a tripla situação dos sexos na origem do ser humano, pela boca de Aristófanes, no seu delicioso Banquete. § 6 Suas metáforas adquiriam ares de verdade histórica, o que é obviamente falso e deveriam ser para Platão e seus discípulos. Seu dogmatismo se equilibra, porém, na ironia. § 7 Noutro diálogo, mais complexo, o Crátilo, apresentou ao Ocidente, travestindo-se de Sócrates, o primeiro ensaio sobre etimologia que conhecemos. O método fantasioso é interessante, divertido e engenhoso, mas não tem valor científico. No máximo, alguns chutes bem dados atingem a trave, mas a imensa maioria passa bem longe do gol. § 8 A etimologia não pode ser abandonada, como um delírio sem sentido, pelos linguistas. É possível fazer etimologia com rigor e método e isso é uma ferramenta utilíssima para entender o fenômeno linguístico. Muitos já o fizeram, como prova a historiografia da linguística, e nas suas pegadas devemos nos pautar, não nas dos charlatães. § 9 Escolhamos duas palavras ao acaso: "revisar" e "revistar". É inegável que há nelas uma semelhança formal, uma vez que os sons são praticamente os mesmos. Mas semelhança de sons não tem muito a ver com uma boa investigação etimológica, caso contrário jamais diríamos que "chão" e "plano" vêm do mesmo étimo e nunca poderíamos relacionar a palavra "andorinha" ao termo hirundo, de que se origina. Ver § 10 Tampouco a semelhança de significado é algo em que nos possamos fiar cegamente. Segundo o Houaiss, "revisar" é "visar de novo; ter novamente sob os olhos (alguma coisa)", "fazer a inspeção de", "apor visto a", "ler (texto), a fim de consertar- lhe possíveis erros, sejam eles relativos à estrutura do texto (redação, digitação, tipografia etc.) ou ainda relativos ao conteúdo; emendar, corrigir, rever", "ler (prova tipográfica), acompanhando o original e assinalando os possíveis erros", "levar (alguma coisa) novamente em consideração; repensar, reconsiderar". Já "revistar" seria "passar revista a", "rever, examinar detidamente, com atenção", "dar busca a, procurar (alguma coisa) em; vasculhar, varejar". § 11 Perdemo-nos facilmente no cipoal dos sentidos das palavras se não tivermos um método. Ora, nas duas palavras (revistar; revisar), é inegável que há algo em comum, que está relacionado com o ato de ver. Como foi o trajeto histórico que as formou? § 12 O verbo "ver" vem do latim videre. Isso é algo consabido, uma vez que a certeza etimológica é praticamente total. Vejamos as suas provas: de videre temos a queda do -d- que acontece em centenas de palavras e é uma característica de várias línguas românicas. Também temos a queda do -e final, como acontece sistematicamente em todos os verbos vindos do latim. Alguém atento observaria que o -i- do latim, como em todas as línguas românicas do Ocidente, também deveria transformar-se em -e-, de modo que o resultado final seria veer e não "ver". Essa palavra veer foi atestada? Sim: desde os primeiros documentos da língua portuguesa até o início do Renascimento, a única forma documentada é veer, de modo que "ver" surgiu depois, por um fenômeno chamado crase (fusão de dois sons idênticos em um só), comum no período. § 13 Desse modo, todas as mudanças necessárias para se transformar videre em "ver" não são arbitrárias nem inventadas para satisfazer só esta etimologia. Elas são verificadas em centenas de outras palavras do português e de outras línguas românicas, são sistemáticas e bem definidas espacial e temporalmente. Previsibilidade § 14 Os fenômenos descritos aqui são certos, seguros e precisos, quase mecânicos, de tão previsíveis. Acresça-se à nossa certeza a mudança semântica que praticamente inexistiu, neste caso. Transformações irregulares, porém, existem, mas um -dnão se torna um -l- à toa, nem aparecem vogais a mais sem razão alguma. Nem sempre a etimologia respeita leis fonéticas inexoráveis e sem exceção. Houve até quem imaginasse que sim, no século 19, mas seria muito sem graça se isso ocorresse. § 15 Muita tinta correu por causa desse tema. Embora a ausência absoluta de exceções nas leis fonéticas (em alemão, die Ausnahmlosigkeit der Sprachgesetze) tenha caído em descrédito, é inquestionável a capacidade que têm para descrever a posteriori as transformações fonéticas. Mais: são úteis e insubstituíveis quando queremos diferenciar uma boa etimologia de uma má. § 16 Não é à toa que tantos já tivessem percebido isso: Nebrija, Nunes de Leão, Rask, Grimm e muitos autores do século retrasado. Quando a mudança fonética prevista não ocorre, muita coisa pode ter interferido. A analogia com outras palavras, a preferência de uma forma dialetal, a alta frequência de uso e a expressividade sonora são alguns fatores que impedem a linguística histórica de ser uma ciência exata, no sentido estreito do termo. § 17 O próprio fator histórico das mudanças, em si arbitrário e irreproduzível, faz com que um modelo dedutivo, com leis fonéticas fixas e variáveis determinadas, seja algo difícil de alcançar. A história é a única licença que o rigoroso filósofo Popper deu à indução. § 18 No entanto, dizer isso não é abrir as comportas da frustração e da desilusão, não é cair no relativismo tosco e na incerteza absoluta típica que grassaram na filosofia a partir da década de 50 do século passado e foram criticados por Alan Sokal e Jean Bricmont (Imposturas Intelectuais. São Paulo, Record, 2006). (VIARO, Mário Eduardo. Com o pé no passado. Disponível em: http://revistalingua.uol.com.br/textos/97/com-o-pe-no-passado- 301018-1.asp. Acesso em: 3 maio 2014. Adaptado.)

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“A etimologia não pode ser abandonada, como um delírio sem sentido, pelos linguistas.” (§ 8) A construção transcrita acima é CORRETAMENTE descrita como um caso de:

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