Língua PortuguesaInferências, pressupostos e subentendidosFundep 2019
Pref Uberlândia
Questão de Língua Portuguesa
Explicando Hamlet aos primitivos Affonso Romano de Sant’Anna Uma antropóloga americana chamada Laura Bohannan resolveu testar se uma tribo primitiva na África (os Tiv) podia compreender Shakespeare. Ela partia de um pressuposto: que o gênio inglês tratava de sentimentos universais nos seus textos dramáticos, portanto, todos deveriam entendê-lo. E, assim, dispôs-se a verificar os limites de sua teoria, que era também uma maneira de estudar antropologicamente as diferenças culturais. Rumou para o oeste da África e foi viver com os Tiv. Adotou uma estratégia que foi ficar lendo sozinha, na sua cabana, o Hamlet. Ficava de propósito lá entretida esperando que eles se interessassem pelo que estava lendo. E tão entretida estava que os primitivos começaram a ficar intrigados, afinal, o que acontecia com ela quando ficava com aquele livro na mão? Pediram, então, que lhes contasse a história que estava lendo. Laura chamou-os para ouvi-la. Estavam eles ali já sentadinhos em torno dela e mal ela iniciou a narrar, começaram os problemas de interpretação. Quando descreve aquela cena inicial em que o rei e pai de Hamlet, depois de assassinado, aparece vagando na torre do castelo, um dos homens da tribo disse que aquilo era impossível. Ele não podia ser o “chefe”, mas outra pessoa, apenas um representante dele. E a coisa tornou-se mais complicada porque não podiam entender a palavra “fantasma”. Para eles só podia ser um “zumbi”, uma entidade maléfica qualquer. Além do mais, diziam, os mortos não andam, que coisa era aquela de ficar zanzando noite adentro? A antropóloga tentou explicar uma coisa e outra, e tentando passar por cima das divergências, continuou. Quando lhes foi dito que o tal fantasma do rei havia confidenciado a Hamlet que só ele, seu próprio filho, poderia resolver o problema de sua morte, ou seja, de vingá-lo, de novo os primitivos acharam estranho. Na tribo deles, não é tarefa dos jovens resolverem os problemas. Quem tem que assumir a responsabilidade é o ancião. E o ancião na estória de Hamlet era Cláudio, tio de Hamlet. Só que este é que havia assassinado o rei com o beneplácito da própria mãe de Hamlet. Os africanos já deviam estar achando os brancos para lá de malucos, e mais intrigados ficaram quando a narradora lhes deu outra informação da estória. Ou seja, que Gertrudes, a mãe de Hamlet, se casou rapidamente com Cláudio, ou seja, não havia sequer deixado o cadáver do marido esfriar. Isso era, de novo, inaceitável. Segundo o costume daquela tribo, a viúva tinha que ficar pelo menos dois anos de luto. Claro que as mulheres nem sempre concordavam com isso, pois durante a narrativa da antropóloga, uma esposa que ouvia a estória reclamava que quando o marido morria, era necessário rapidamente outro homem para cuidar do campo e das cabras. 12 Enfim, a tarefa a que se propôs a antropóloga americana foi se frustrando. A cada informação que dava, vinha uma divergência cultural e simbólica. Ela teve até que saltar o famoso monólogo. Essa coisa de “ser” e “estar” só os metafísicos ocidentais entendem. É possível que você como eu nunca tenha tentado explicar Hamlet aos gentios. Mas é certamente provável que, sem ir à África e sem ter o Hamlet nas mãos, você e eu tenhamos tido experiências semelhantes dentro da nossa própria tribo tentando explicar o inexplicável. Em relação a outras tribos, piora. SANT’ANNA, Affonso Romano de. Ler o mundo. São Paulo: Global, 2011.
A leitura do texto permite atestar a tese implícita de que
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.


