Língua PortuguesaGêneros textuaisVunesp 2026
FCMSCSP
Questão de Língua Portuguesa
1 Passando em certa rua do centro da cidade, vi à porta de uma loja uma prateleira grande em que havia, em grande número, umas pequeninas pílulas de um amarelo tostado. Defronte da prateleira, um cavalheiro, cuja atenção provavelmente fora como a minha atraída na passagem, gesticulava e resmungava: — Nunca imaginei que fosse verdade o que dizem os jornais! Como se rouba o povo! Intrigado, resolvi interpelar esse indignado cavalheiro: — Que pílulas são estas, meu estimado senhor? 5 O homem olhou-me com espanto: — Pílulas?! Que pílulas? — Estas que aqui estão sobre a tábua, meu estimável senhor! Estes grânulos dosimétricos... — Que grânulos dosimétricos, homem? Pois não está vendo que estas bolinhas são pães, pães de trigo, verdadeiros pães, pães legítimos?! Enfiei... Mirei longamente o homem, mirei depois as bolinhas. Aproximei-me ainda mais da prateleira, e vi que o homem dizia a verdade: eram pães! Eram pães de quarenta réis! 10 A princípio, fiquei indignado. Sem demora, porém, caminhando para a rua do Ouvidor, a reflexão me acalmou a cólera. Uma pílula de pão, por quarenta réis... realmente não é caro! Há pílulas menos baratas: as de arsênico, as de morfina, as de estricnina. E essas matam! Ao passo que as de pão não matam ninguém, — nem mesmo de indigestão! De que se queixa o povo? Acredita o povo que os padeiros reduzam a tão fracas dimensões o pão nosso de cada dia apenas com o intuito de enriquecer à nossa custa? Não sabe o povo que o maior inimigo da saúde é o excesso de alimentação? Pode acaso ter saúde quem se empanturra de sol a sol, comendo desabaladamente? Não sabe o povo que o jejum é a base do aperfeiçoamento moral? Na Índia, os fakirs, quando querem embeber a alma na contemplação divina, a primeira coisa que fazem é deixar de comer. A Santa Madre Igreja Católica muito sabiamente coloca entre as penitências indispensáveis o jejum. Encher o estômago é ficar igual às bestas; trazê-lo vazio é ficar igual aos anjos! Os padeiros do Rio de Janeiro sabem perfeitamente disso. Não vão ao extremo de deixar o povo sem pão: mas procedem com sabedoria, servindo-lhe o trigo em glóbulos dosimétricos... Abençoada e providente classe! (Registro: crônicas da Belle Époque carioca, 2011.)
Na crônica, referências ao discurso científico (“maior inimigo da saúde”, “excesso de alimentação” etc) e ao discurso religioso (“jejum”, “aperfeiçoamento moral” etc) são mobilizadas para justificar a diminuição do tamanho dos pães. Tal procedimento contribui para
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.
