Questões de Língua Portuguesa · COPESE UFPI

Língua PortuguesaPonto e vírgula e dois-pontosCOPESE UFPI 2017

Pref Teresina

Questão de Língua Portuguesa

Voltando à vida 01 Vida é assim. Um dia de manhã você pega seu carro, na praia, para ir a Porto Alegre, onde tem alguns 02 assuntos a resolver. À tarde você estará de volta; como muitos, como todos, você acredita que a vida pode ser 03 planejada e que as coisas acontecerão conforme o previsto. 04 Você então vai dirigindo seu carro, conversando com uma amiga, nesta manhã agradável. E então um 05 estrondo, e um segundo depois você está atirado no chão, o sangue escorrendo de vários ferimentos, dores 06 lancinantes pelo corpo. Você não acredita. Não, não pode ser verdade, isto é um pesadelo, eu ainda não acordei, 07 estou sonhando, daqui a pouco despertarei e começarei uma viagem a Porto Alegre, e aí sim, tudo dará certo. 08 Mas a realidade se impõe, brutal: você acabou de sofrer um acidente, e você sente o tênue sopro de sua vida 09 vacilando, prestes a se extinguir. 10 Sou médico. Sofri um acidente, mas sou médico, continuo médico. Muitas vezes atendi pessoas em 11 situação igual à que me encontro, aprendi algo com isso, aprendi a pensar sobre o trauma grave. É de minha 12 lucidez médica que preciso agora, nesta desesperada tentativa de enfrentar o caos que, eu sei, precede o fim. 13 Não enxergo. Por alguma razão — trauma craniano, acho — perdi a visão. Mas ouço vozes. Confusas, 14 alarmadas. Querem me levar. E eis o primeiro perigo: ―levar‖ significa que me agarrarão pelos braços e pelas 15 pernas, me colocarão num carro e assim serei transportado. Mas sei que tenho fraturas e o alarme soa dentro de 16 mim: não, eles não podem me levar, eles me colocarão em risco ainda maior. Com o que resta da minha 17 autoridade médica, comando: não me mobilizem, deixem-me aqui, chamem uma ambulância. 18 Neste momento, a sorte decide a meu favor. Há um sargento da Brigada Militar no local e também, como 19 me contaram depois, um auxiliar de enfermagem. E são eles que organizam minha remoção: pedem emprestado 20 a um chofer de caminhão uma porta de madeira, do carregamento que ele leva, e é nesta maca — improvisada, 21 mas segura — que sou transportado numa ambulância da Secretaria da Saúde — a mesma Secretaria para a 22 qual trabalho. 23 E aqui estou eu, em outro cenário que não me é desconhecido: no Pronto Socorro muitas vezes fiz 24 plantão, muitas vezes recebi pacientes que, como eu, chegavam com o rótulo temível: politraumatizado. 25 Sou colocado numa maca e rapidamente examinado. As suspeitas se confirmam: há várias fraturas, 26 preciso ser radiografado, tomografado. E então começa a corrida da maca pelo corredor: é o teto que eu vejo, o 27 teto passando rápido, e faces ansiosas, e luzes, e aparelhos. 28 Cada movimento desperta dores lancinantes. Há um só momento em que tenho descanso: quando me 29 introduzem dentro do tomógrafo. Esta experiência, que em outros se acompanha de claustrofobia, me 30 proporciona um bem-estar incrível: ali estou, imobilizado, sem dor, quieto, no escuro. Deixem-me aqui, é o que 31 eu tenho vontade de pedir, mas sei que é impossível. Levam-me para a Unidade de Tratamento Intensivo. 32 Ali obtenho o primeiro alívio: com grande habilidade, o anestesista introduz-me na coluna vertebral um 33 cateter que pinga morfina diretamente nas raízes nervosas. Tão grande é o bem-estar que chego a ficar eufórico. 34 Uma euforia que, contudo, não durará muito. 35 A radiografia mostra que tenho várias costelas quebradas e hemotórax: um derrame de sangue na 36 cavidade torácica. A função respiratória está em risco, é conveniente que eu seja transportado para um serviço 37 especializado, o Pavilhão Pereira Filho, da Santa Casa de Porto Alegre. Ali também estou em casa: frequentei 38 esse serviço quando, no começo de minha carreira médica, trabalhava com tuberculose. A equipe que José 39 Fernando Carneiro, Nelson Porto e Bruno Palombini formaram aqui está. Este grupo, um dos melhores do país, 40 cuidará de mim. 41 De imediato sou transportado à UTI. E aí viverei uma experiência, para dizer o mínimo, insólita. Na UTI a 42 vida está em suspenso. O tempo ali não passa — aliás, não há relógios nas paredes. A luz nunca se apaga; não 43 é dia, não é noite, reina uma claridade fixa, imutável. Mas o movimento é contínuo; médicos, enfermeiras, 44 auxiliares circulam sem parar, examinando, manipulando os doentes, sempre em estado grave. 45 Pequenos detalhes passam a adquirir uma importância desmesurada. Com nove costelas fraturadas eu 46 não podia sequer mover-me; estava reduzido ao mais completo estado de desamparo. Que me recusava a 47 aceitar. Durante horas pensei num esquema que me permitiria deitar de lado. Para isso, eu tinha de alcançar a 48 grade da cama com os dedos, avançar milímetro a milímetro até que, auxiliado pela gravidade, pudesse rotar 49 sobre mim mesmo. O problema é que meus dedos não chegavam à grade. Poucos centímetros me separavam 50 dela — mas era como se a maldita grade estivesse em outro planeta. Claro, poderia pedir auxílio. Mas era 51 exatamente este detalhe que tornava ainda mais penosa a situação. Pedir auxílio para virar na cama — e para 52 comer, para evacuar... Dolorosa depressão. 53 Um dia — acho que sob o efeito dos sedantes — tive uma alucinação. Acordei e vi um grupo de médicos 54 reunidos em torno ao monitor de um paciente, desses monitores que mostram o traçado eletrocardiográfico. Por 55 uns momentos fiquei me perguntando, absolutamente intrigado, o que estariam fazendo. E aí achei uma 2 | P á g i n a 56 resposta: aquilo era um curso. Mais: era um curso a que eu deveria estar presente. Em vez disso, estava 57 deitado. Pouca vergonha. 58 Com tremendo esforço, levantei-me. A sonda e o equipamento de soro tolhiam-me os movimentos e eu 59 já ia arrancá-los, quando uma enfermeira me viu e convenceu-me a voltar para o leito. Voltei. Mas com muita 60 raiva por ter perdido aquela aula. 61 Eu tinha que assumir a realidade do meu estado, bastante grave em alguns momentos. E isso foi 62 possível sobretudo graças aos médicos que me trataram. Depois de muitos anos às voltas com a saúde pública, 63 quase tinha esquecido este fato fundamental: a luta contra a doença e a morte tem como cenário principal o 64 corpo enfermo. E deste corpo enfermo cuidavam meus colegas, com extraordinária dedicação e carinho: 65 Jacques, Felicetti, Camargo, Sergio Zylberztein, Maria Eunice, e mais os residentes, os plantonistas, os 66 enfermeiros, os auxiliares, as fisioterapeutas. Nós sempre devemos nossa vida a muita gente, mas no hospital 67 isso fica ainda mais claro. 68 Lições? Muitas. O cinto de segurança. A precariedade de nossos carros: falam-nos em ―velocidade‖, em 69 ―sedução‖, não nos falam em proteção. A necessidade de um esquema rápido de remoção nas estradas. Mas, 70 sobretudo, esta surpresa que é a recuperação de tradicionais hospitais: o Pronto Socorro, a Santa Casa. 71 Saí de um episódio sombrio não apenas com a saúde preservada, mas com a confiança restaurada. E 72 isso, para quem está há anos no ramo, não é pouco. Garanto: não é pouco. (SCLIAR, Moacyr. Voltando à vida. In: A face oculta: inusitadas e reveladoras histórias da medicina. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2001)

Em várias passagens do texto, dois pontos são utilizados para separar expressões nominais, que funcionam como rótulos prospectivos, das situações, cenas, descrições ou relatos que esses rótulos sumarizam. Dentre os trechos a seguir, o único em que NÃO há uma ocorrência do tipo é:

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