Língua PortuguesaPersonificação ou prosopopeiaQuadrix 2022
CAU SC
Questão de Língua Portuguesa
1 Quando você me diz “lá em casa” eu vejo um bicho feito de ângulos, retas e paralelas, um animal composto de planos e perspectivas, feito bicho fotografado. Vejo uma 4 porção de coisas, só depois vejo gente, quase como se fosse em detalhe. A casa fez o homem, depois descansou e recebeu gente para viver. 7 Ninguém sabe nada de casa. Assunto é quem nela mora. Mas as casas — as casas são. Não só a decoração, o estilo e a disposição. Algo além, que não foi planejado mas 10 começou a aparecer, desde os primeiros tijolos. A casa sente-se aos poucos, seus sinais de vida. Sua respiração é noturna e descompassada: tem algo de pássaro lidando com 13 ninho. A casa — principalmente à noite quando a gente dorme. De noite, você range e a casa tem medo. De noite, 16 certos ratos que você não conhece se nutrem. De noite, pessoas parecidas com você passam de um canto para outro e não são notadas. De noite, o estranho no sótão (mesmo 19 que seja apartamento há esse estranho no sótão) sai para brincar. Anões percorrem as estantes, um azulejo muda de lugar, mas se recompõe. Todas essas coisas lógicas e 22 esperadas da casa a sós. A casa se mal assombra, nós apenas nos assombramos. Há uma porta que não empena depois das 23h. Um alçapão que você não conhecia 25 engole bloco de cimento. O mecanismo funciona perfeito. O curto-circuito é você: deitado. Casa não deita: levanta. Mas ficou sem dormir no escuro: descobrirá como 28 é circunstancial o dono da casa. A casa é história, nós somos cidadãos. Uma casa é um mecanismo que desandou e, de todos os seus ritmos, só oferece a você aquele que você 31 precisa. Mas os outros, estão lá: fique acordado e veja. Nada é estranho. Estranho é você que não sabe parar, a casa é uma perfeição de paradas e freios. Pare, olhe e more. 34 Quando você dorme, a casa faz. Quando você sai, a casa fica. Na realidade vocês não se conhecem. São uma acomodação interesseira. Se você conseguir — leva 37 tempo — vê-la acordada, vai ser duro para você. Vai querer nunca mais dormir e essa, não há dúvida, é a pior das mortes. Ivan Lessa. A casa. In: Diário Carioca, Rio de Janeiro, 1965. Internet: <cronicabrasileira.org.br> (com adaptações).
O autor do texto atribui à casa características típicas de seres vivos, como no trecho
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.




