Questões de Língua Portuguesa · DECEx

Língua PortuguesaIroniaDECEx 2021

CMJF

Questão de Língua Portuguesa

Texto 1 Medo de saci Pedrinho, naqueles tempos, costumava passar as férias no sítio de Dona Benta, onde brincava de tudo, como está nas Reinações de Narizinho e na Viagem ao céu. Só não está contado o que lhe aconteceu antes da famosa viagem ao céu, quando andava com a cabeça cheia de sacis. A coisa foi assim. Estava ele na varanda com os olhos no horizonte, posto lá onde aparecia o verdeescuro do Capoeirão dos Tucanos, a mata virgem do sítio. De repente, disse: — Vovó, eu ando com ideias de ir caçar na mata virgem. Dona Benta, ali na sua cadeirinha de pernas cotós, entretida no tricô, ergueu os óculos para a testa. — Não sabe que naquela mata há onças? — disse com ar sério — Certa vez uma onça pintada veio de lá, invadiu aqui o pasto e pegou um lindo novilho da vaca Mocha. — Mas eu não tenho medo de onça, vovó! — exclamou Pedrinho, fazendo o mais belo ar de desprezo. Dona Benta riu-se de tanta coragem. — Olhem o valentão! Quem foi que naquela tarde entrou aqui berrando com uma ferroada de vespa na ponta do nariz? — Sim, vovó, de vespa eu tenho medo, não nego — mas de onça, não! Se ela vier do meu lado, pregolhe uma pelotada do meu bodoque novo no olho esquerdo; e outra bem no meio do focinho e outra... — Chega! — interrompeu Dona Benta, com medo de levar também uma pelotada. — Mas, além de onças, existem cobras. Dizem que até urutus há naquele mato. — Cobra? — e Pedrinho fez outra cara de pouco caso ainda maior. — Cobra mata-se com um pedaço de pau, vovó. Cobra!... Como se eu lá tivesse medo de cobra... Dona Benta começou a admirar a coragem do neto, mas disse ainda: — E há aranhas caranguejeiras, daquelas peludas, enormes, que devoram até filhotes de passarinho. O menino cuspiu de lado com desprezo e esfregou o pé em cima. — Aranha mata-se assim, vovó — e seu pé parecia mesmo estar esmagando várias aranhas caranguejeiras. — E também há sacis — rematou Dona Benta. Pedrinho calou-se. Embora nunca o houvesse confessado a ninguém, percebia-se que tinha medo de saci. Nesse ponto, não havia nenhuma diferença entre ele, que era da cidade, e os demais meninos nascidos e crescidos na roça. Todos tinham medo de saci, tais eram as histórias correntes a respeito do endiabrado moleque duma perna só. Desde esse dia, ficou Pedrinho com o saci na cabeça. Vivia falando em saci e tomando informações a respeito. Quando consultou tia Nastácia, a resposta dela foi, depois de fazer o sinal da cruz e dizer "Credo!". — Pois saci, Pedrinho, é uma coisa que gente da cidade nega, diz que não há — mas há. Não existe velho por aí, desses que nascem e morrem no meio do mato, que não jure ter visto saci. Nunca vi nenhum, mas sei quem viu. — Quem? — O tio Barnabé. Fale com ele. Homem sabido está ali! Entende de todas as feitiçarias e de saci, de mula-sem-cabeça, de lobisomem — de tudo. Pedrinho ficou pensativo. LOBATO, Monteiro. O Saci / Monteiro Lobato. São Paulo: Brasiliense, 2005.(Adaptado) Vocabulário: Cotós: pequenas / baixa estatura. Novilho: boi novo/ bezerro. Pelotada: pedras pequenas de barro. Bodoque: arco utilizado para arremessar bolas pequenas. Urutu: cobra temida pelo poder do veneno. PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA Prova 1

É possível identificar ironia na seguinte passagem do texto I:

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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.