Língua PortuguesaInterpretação de textosCPSI (UFPEL) 2012
UFPEL
Questão de Língua Portuguesa
om as crianças aprendemos sempre. Mas C quando elas adoecem, transformam-se em didatas ainda mais impressionantes. A perplexidade diante da doença, o temor do 5 desconhecido e a confissão dos medos sem dissimulação enternecem este convívio. Não apenas pelo olho aceso no apelo desesperado por ajuda, mas pela incapacidade do médico de ser uma coisa 10 só, sucumbindo à dualidade entre o técnico rigoroso e o resíduo instintivo de pai ou mãe que cada um de nós carrega, não importa a combinação dos cromossomas. Respeito a opinião dos que condenam 15 o envolvimento afetivo nesta situação, sob o pretexto de que isso poderia comprometer a isenção do juízo médico, mas festejo, encantado, a legião dos que não conseguem evitar. O Bernardo nasceu com um defeito 20 congênito, descoberto aos quatro anos de idade, depois de uma série de infecções pulmonares. Na noite anterior à cirurgia, rodeado de pais e avós, ouviu as explicações do que seria feito, tudo cuidadosamente elaborado para que chegasse ao 25 seu nível de entendimento e sem gerar uma ansiedade desnecessária. Terminada a conversa, com o olhinho mais inocente, perguntou: “E você sabe fazer isso?” Como é impossível deixar de pensar 30 que aquela figurinha miúda, enrolada no lençol, poderia ser um filho ou um neto, é fácil entender porque os pediatras de vocação são os médicos mais carinhosos. O exercício da doçura adoça as pessoas. O Wendel gastou mais da metade dos 35 seus escassos 14 anos em internações complicadas, terapias intensivas de alto risco, longos períodos de respiração artificial e, depois de tudo, submeteu-se a um transplante duplo de pulmões. Como as placas de facilitação não acompanham sua trilha, fez uma 40 complicação num dos brônquios implantados do doador, necessitando correção cirúrgica. Novamente no bloco cirúrgico, nos encontramos. Cumpridos os abraços e beijos, veio o comentário, com uma cara gorducha e séria. “Estou 45 nas suas mãos.” Quando respondi, meio debochado: “Você sempre esteve!”. Ele completou : “Pois vê se não erra desta vez!”. Límpidos assim, nascemos. Uma pena 50 que, ao longo da vida, preocupados em construir a blindagem para o convívio social, percamos muito dessa pureza original. *J.J. Camargo é cirurgião torácico e chefe do Setor de Transplantes da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre Caderno VIDA, Zero Hora, 31/03/2012 Cargo: Biólogo/Classe E-101 - 3 / 11
Segundo o texto,
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

