Questões de Língua Portuguesa · FCC

Língua PortuguesaParáfrase e síntese de textosFCC 2006

PC MA

Questão de Língua Portuguesa

Os livros são objetos frágeis. Suscetíveis a diversas ameaças naturais – traças, inundações, incêndios -, têm de enfrentar ainda as mais destrutivas paixões humanas: o fanatismo religioso e a censura ideológica. O ensaísta venezuelano Fernando Báez traça um assustador painel histórico da eliminação de bibliotecas. São documentados cinco milênios do que ele chama de “memoricídio”. Nunca houve uma época histórica sem alguma forma de perseguição aos livros (e, por extensão, a seus autores). Mais perturbador é constatar que não são só os brutos e ignorantes que acendem as fogueiras. O típico destruidor de livros, pelo contrário, é um erudito que conhece em profundidade determinada tradição religiosa ou ideológica – e que por isso mesmo deseja banir qualquer dissidência. Até mesmo Platão teria destruído, segundo testemunhos, a obra de filósofos rivais. Especialista na conservação de bibliotecas, Sáez é consultor da Unesco e sua obra é um exaustivo inventário da destruição cultural. O trajeto histórico do livro começa no que hoje é o Iraque. Foi naquela região que apareceram as primeiras evidências da escrita, em tabletas de argila produzidas pelos sumérios, há cerca de 5 000 anos. Sítios arqueológicos da época já revelaram tabletas destruídas e queimadas, como resultado de ações de guerra. Também foi destruída a mais célebre biblioteca da Antigüidade na cidade egípcia de Alexandria que, fundada no século III a.C., tinha provavelmente o maior acervo de livros do mundo antigo. A causa de seu desaparecimento é matéria de controvérsia entre historiadores. O fanatismo político tem tanto poder destrutivo quanto o religioso. No século XX, não há imagem mais simbólica do obscurantismo do que as fogueiras de livros na Alemanha nazista, em 1933. Joseph Goebbels, mentor ideológico da destruição, estudou filologia na Universidade de Heidelberg. O livro termina com um capítulo sobre a Guerra do Iraque. Báez visitou o país pouco depois da invasão americana, 2 em 2003, para aferir os danos causados ao patrimônio cultural iraquiano. Seu relato é desolador: museus, bibliotecas, sítios arqueológicos arrasados. Os danos começaram com os bombardeios, mas a devastação maior se deu quando os primeiros combates cessaram. Turbas enfurecidas saquearam e queimaram a Biblioteca Nacional e o Museu Arquelógico de Bagdá. O exército americano omitiu-se na defesa de um acervo de importância universal: o Iraque concentra peças de numerosas civilizações antigas, como os sumérios, os babilônios e assírios. Contrabandeados para fora do país, livros raros e peças arqueológicas alimentaram o mercado negro internacional. Do museu foram roubadas algumas tabletas de argila sumérias que estariam entre os primeiros livros da história. É uma melancólica ironia: o primeiro grande XXI “memoricídio” do século aconteceu no lugar onde nasceu a palavra escrita. (Adaptado de Jerônimo Teixeira, Veja, 31 de maio, 2006, p.114-5)

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