Língua PortuguesaCraseIbest 2026
SESC DF
Questão de Língua Portuguesa
1 Todo moleque da periferia acha que vai ser jogador de futebol. Não porque saiba fazer gol. A primeira coisa que ele aprende é driblar, e é esse o seu 4 passaporte para ser chamado para qualquer pelada. Assim como a televisão agora está em toda parte, o futebol é onipresente na periferia. 7 A disputa entre séries da Escola Estadual Euclydes da Cunha, na Chacrinha, no ano de 1983, acontecia num “campim” criado em cima de um brejo 10 com a serragem da fábrica de móveis ao lado. O efeito ao correr era cômico para quem via e de aventura para quem jogava. Quando corríamos, a serragem afundava 13 junto com o nosso pé. Quem ficava de fora da partida, subia no pé de jabuticaba e, depois de mastigar, pegava o estilingue e 16 arremessava o caroço nos pernas de pau. Alguns dias consegui sair com a camisa limpa. A vista da mistura de serragem com jabuticaba 19 lembrava um filme-catástrofe. Em outro ponto do “campim”, um pé de tamarindo ensaiava o meu paladar para as balas que viria a conhecer no vagão de 22 trem do ramal Gramacho. Só não comprava as balas de tamarindo quando ouvia o “poderoso Dragão Chinês” ser anunciado em voz anasalada pelo vendedor no 25 vagão. Pular da árvore em direção à serragem também se tornou um passatempo para quem ficava de fora das 28 partidas. Outros preferiam ficar narrando o jogo, como se fosse uma partida entre Flamengo e Vasco, a real rivalidade carioca. 31 Na segunda-feira seguinte ao histórico 2 x 1 do Flamengo sobre o Vasco, imitar a narração de rádio durante a pelada quase gerou uma briga entre a oitava 34 e a sétima séries. Imitar narração de jogo na hora do recreio me levou a varar minha primeira noite, esperando Flamengo e Liverpool ser transmitido pela 37 TV. No dia seguinte, repeti a escalação tantas vezes que não esqueci até hoje. Aquele ano inteiro foi motivado pela vontade de 40 ser jogador de futebol. Mas a vida é dura para um moleque. Esse desejo foi interrompido pelas inúmeras vezes que não pude ir ao “campim” para ficar sentado 43 numa cadeira ouvindo o barulho da lata de Neocid sobre minha cabeça. Para ajudar, eu tentava acabar com os piolhos treinando cabeçada. Marcus Vinícius Faustini. Balas de tamarindo. In: Guia afetivo da periferia. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2009 (com adaptações).
No trecho “Pular da árvore em direção à serragem também se tornou um passatempo para quem ficava de fora das partidas” (linhas 26 a 28), o emprego do acento grave no termo “à” justifica-se
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.


