Língua PortuguesaIroniaFADESP 2016
Pref Baião
Questão de Língua Portuguesa
Eduardo Loureiro Jr. 1 Há algumas décadas, quando minha tia médica foi fazer residência em 2 São Paulo capital, minha avó, nascida e crescida no interior do Ceará, deu-lhe 3 um único conselho: "Em terra de sapos, de cócoras como eles." O conselho foi 4 seguido e há cinco anos, quando comemorávamos o aniversário de 80 anos de 5 minha avó, minha tia escolheu a lembrança desse conselho para falar de sua 6 mãe. 7 Os ditados, ou provérbios, constituem uma sabedoria simples que nós, 8 em nossos delírios de complexidade urbana, já quase não conseguimos 9 entender: para nós, soam simplistas ou moralistas, e quando os repetimos é 10 mais por um hábito de linguagem do que por acreditar em suas palavras. 11 Entretanto, brinco de imaginar que minha avó poderia ter aconselhado 12 minha tia com um ditado diferente: "Em terra de cegos, quem tem um olho é rei". 13 O provérbio, de sentido praticamente oposto ao anterior, incentivaria não a 14 adaptação mas a autoexpressão diferenciada. Está aí a riqueza dos provérbios: 15 para cada um deles, há um outro que diz o inverso, de forma que há ditados 16 para tudo. "Incoerência", poderia pensar nossa mente racionalizada. Eu prefiro 17 ver outra riqueza valiosa no fundo dessa riqueza "incoerente": a grandeza dos 18 provérbios não está apenas no que eles explicitamente expressam, está na 19 sabedoria de saber usar o ditado certo na hora certa. 20 Meses atrás, durante um almoço em família, um de meus cunhados falou 21 do seu hábito de guardar a melhor parte da comida para o final e de como sua 22 mulher, minha irmã, tinha o "dom" de chegar justo na hora em que ele estava 23 prestes a saborear seu pequeno tesouro, pedindo: "Amor, me dá esse 24 pedacinho." Depois de muito rir, lembrei daquele outro ditado: "Quem guarda 25 com fome, o gato vem e come". 26 Sim, há qualquer coisa maravilhosa em se guardar o melhor para depois, 27 ou mesmo para o final: que filme ou história teria graça se o final feliz fosse no 28 começo? Talvez até a sobremesa não parecesse tão apetitosa se tivéssemos 29 por hábito comê-la antes do prato principal. 30 Eu também tinha esse costume de adiar as coisas boas para torná-las 31 ainda mais atraentes algum tempo depois. Ultimamente, tenho guardado menos 32 e tenho brincado mais de descobrir o ponto exato da vontade: se quero, como; 33 se não quero, passo. [...] Disponível em: http://www.cronicadodia.com.br/2008/02/quem-guarda-com-fome-eduardo-loureiro.html. Acesso em 4 maio 2016.
Na passagem “sua mulher, minha irmã, tinha o "dom" de chegar justo na hora...” (l. 21 a 22) ocorre uma
Mais questões de Ironia
- Vunesp 2026A ironia é uma figura de linguagem, geralmente usada para fazer graça ou mostrar irritação, em que se declara o contrário do que se pensa. Há ironia no trecho:
- FUNDESTE 2026No trecho "Recebemos um disco voador do chão, que jamais decolava, que falava inglês e ruminava a sujeira.", a construção imagética opera por meio de recursos expressivos que inte…
- Instituto Verbena 2026Leia o texto a seguir. ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001. No trecho “Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis…
- OMNI 2026Assinale a alternativa a qual a frase corresponde a figura de linguagem ironia.
- CETAP 2026Identifique o fragmento que contém Ironia.
Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

