Questões de Língua Portuguesa · Marinha

Língua PortuguesaSignificação de palavras e expressões em contextoMarinha 2023

Marinha

Questão de Língua Portuguesa

No restaurante – Quero lasanha! Aquele anteprojeto de mulher – quatro anos, no máximo, desabrochando na ultraminissaia – entrou decidida no restaurante. Não precisava de menu, não precisava de mesa, não precisava de nada. Sabia perfeitamente o que queria. Queria lasanha. O pai, que mal acabara de estacionar o carro em uma vaga de milagre, apareceu para dirigir a operação-jantar, que é, ou era, da competência dos senhores pais. – Meu bem, venha cá. – Quero lasanha. – Escute aqui, querida. Primeiro escolhe-se a mesa. – Não, já escolhi. Lasanha. Que parada. – Lia-se na cara do pai. Relutante, a garotinha condescendeu em sentar-se primeiro, e depois encomendar o prato: – Vou querer lasanha. – Filhinha, por que não pedimos camarão? Você gosta tanto de camarão. – Gosto, mas quero lasanha. – Eu sei, eu sei que você adora camarão. A gente pede uma fritada bem bacana de camarão. Tá? – Quero lasanha, papai. Não quero camarão. – Vamos fazer uma coisa. Depois do camarão a gente traça uma lasanha. Que tal? – Você come camarão e eu como lasanha. Aproximou-se o garçom, e ela foi logo instruindo: – Quero uma lasanha. O garçom surpreso e sorridente exclamou: – Opa! Gosto de pessoas que têm decisão! O pai logo interferiu e a corrigiu: – Traga uma fritada de camarão pra dois. Caprichada! A coisinha amuou. Então não podia querer? Queriam querer em nome dela? Por que é proibido comer lasanha? Essas interrogações também se liam no seu rosto, pois os lábios mantinham reserva. Quando o garçom, então, voltou com os pratos e o serviço, ela atacou: – Moço, tem lasanha? – Perfeitamente, senhorita. O pai, no contra-ataque: – A fritada foi providenciada pelo senhor? – Já, sim, doutor. – De camarões bem grandes? – Daqueles legais, doutor. – Bem, então me vê uma cerveja, e pra ela ... O que é que você quer, meu anjo? – Uma lasanha. – Traz um suco de laranja pra ela. A menina tinha olhos de fome e certeza. Com o chopinho e o suco de laranja, veio a famosa fritada de camarão, que, para surpresa do restaurante inteiro, interessado no desenrolar dos acontecimentos, não foi recusada pela senhorita. Ao contrário, papou-a, e bem. A silenciosa manducação atestava, ainda uma vez, no mundo, a vitória do mais forte. – Estava uma coisa, hem? – comentou o pai, com um sorriso bem alimentado. – Sábado que vem, a gente repete ... Combinado? – Agora a lasanha, não é, papai? – Eu estou satisfeito. Uns camarões tão geniais! Mas você vai comer mesmo? – Eu e você, tá? – Meu amor, eu – Tem de me acompanhar, ouviu? Pede a lasanha. O pai baixou a cabeça, chamou o garçom, pediu. Aí um casal, na mesa vizinha, bateu palmas. O resto da sala acompanhou. O pai não sabia onde se meter. A garotinha, impassível. Se, na conjuntura, o poder jovem cambaleia, vem aí, com força total, o poder ultrajovem. ANDRADE, Carlos Drummond. “Para gostar de ler I”. São Paulo: Editora Ática, 2005. 27ª edição. Texto Adaptado.

Assinale a opção que apresenta a sensação expressa pelo termo destacado no trecho "Que parada. - Lia-se na cara do pai." (1.11).

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