Questões de Língua Portuguesa · CEV URCA

Língua PortuguesaInterpretação de textosCEV URCA 2023

URCA

Questão de Língua Portuguesa

8

Figura da questão (imagem do caderno de prova)

Leia o texto a seguir e responda às questões. A literatura indígena no Brasil possui várias histórias. A mais facilmente identificável é aquela em que o índio foi sagrado herói-cavaleiro nas narrativas de cunho épico do final do século XIX. Quando se fala em literatura indígena no Brasil hoje, o senso comum, principalmente aquele pautado pelo letramento literário escolar, evoca o jovem guerreiro tupi de Gonc¸alves Dias, que solenemente pedia: “Meu canto de morte, guerreiros ouvi!”. Ou “a bela tabajara de cabelos mais negros que as asas da graúna”, de José de Alencar. Qualquer iniciado nos estudos literários, bem como qualquer autor de literatura nativa que tem lutado pelo reconhecimento de sua arte, contudo, apontará o equívoco: trata-se de literatura indianista, em que a populac¸ ão autóctone estabelecida anteriormente a colonizac` ¸ ão ou um seu representante foi transformada em tema, objeto, matéria narrada. A expressão “literatura indígena” ou “literatura nativa”, como prefere o escritor indígena Olívio Jekupé, por outro lado, pretende indicar uma apropriac¸ ão original, em que o objeto assume o papel de sujeito autor, criador, artista. O investimento estético na figura do indígena realizado pelos românticos brasileiros foi fundamental para o processo de emancipac¸ ão da arte nacional, mas pouco contribuiu para o reconhecimento do valor autônomo da tradic¸ ão oral da cultura ameríndia. Muito ao contrário: no texto que nossos intelectuais legitimaram como documento inaugural do Romantismo – o “Ensaio sobre a história da literatura no Brasil”, publicado por Gonc¸alves Magalhães em 1836 –, os primeiros povos desta terra são declarados “rac¸a extinta”. Do mesmo modo, José de Alencar desaparece com os índios da paisagem tropical no afã de poder afirmar um passado lendário ao Brasil. Para que Peri e I Juca Pirama fossem Ulisses, Édipo ou Lancelot, os românticos extinguiram os nativos de sua terra pela segunda vez. Na chamada fase interpretativa da formac¸ ão do povo brasileiro, de Gilberto Freire a Darcy Ribeiro, todos aqueles que defenderam a tese da miscigenac¸ ão participaram da terceira morte dos indígenas brasileiros. No plano étnico-cultural, a miscigenac¸ ão se daria a favor da gestac¸ ão de uma etnia nova, que teria unificado, na língua e nos costumes, os índios desengajados de seu viver gentílico, os negros trazidos da África e os europeus aquerenciados nas terras de Santa Cruz. A teoria da “mestic¸agem”, até então em voga, fundamentou um currículo desvinculado da realidade cultural brasileira, como assinala Maria da Penha Silva. Depois disso, ainda levaríamos quase 50 anos para aceitá-los como cidadãos com direitos. A mentalidade eurocêntrica herdada da colonizac¸ ão retardou as consequências de experiências como a dos irmãos Vila Boas na década de 1940 e do desenvolvimento de disciplinas como a antropologia e a etnolinguística. Provas podem ser encontradas nas fotografias que documentam a existência de campos de concentrac¸ ão indígenas em nosso passado recente de ditadura militar. (Texto de Tarsilla Couto de Britto, Sinval Martins de Sousa Filho e Gláucia Vieira Cândido. Disponível em DOI: http://dx.doi.org/10.1590/2316-4018537/. Adaptado)

(URCA/2024.1) Com base no texto, analise as afirmativas a seguir: I. As narrativas de cunho épico no final do Século XIX são, predominantemente, produzidas por autores do Realismo. II. O letramento literário escolar corrige a perspectiva distorcida do senso comum. III. A obra citada de José de Alencar é Iracema. Está(ão) correta(s):

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