Língua PortuguesaMetáfora e comparaçãoICECE 2023
Pref Horizonte
Questão de Língua Portuguesa
1 Era um arigó de cara larga, largo de ombros, largo de passos, riso mais largo ainda. Vestia uma 2 roupa surrada, as calças remendadas no joelho, tamanco no pé. Mas a sua alegria não era apenas 3 a famosa alegria de homem sem camisa: era mais complexa, de causa mais filosófica. Ela não 4 gozava a simples satisfação animal de viver; sentia-se um predestinado, um querido dos deuses. 5 “- Homem, não vê, dona – eu sempre fui pessoas de sorte. Desde o começo. Minha mãe teve onze 6 filhos, veio o garrotilho e matou três num dia só, depois mais três foram morrendo de um em um, 7 de doença de criança, e quando apareceu o paratifo no 32, matou o resto. Quero dizer, matou o 8 resto menos eu. Fiquei sozinho com os velhos. Continuei vivendo nem sei como, que por esse 9 tempo esmirrado, amarelo, comedor de terra. Lá pelos quinze anos foi que comecei a botar corpo 10 de homem; também comia tanto que até fazia vergonha. E mode não ver a velha ralhar, acabado 11 o almoço eu ia na bodega escondido e comprava de bolacha o tostão que tinha no bolso, pra 12 poder confortar o estômago. Comendo em casa alheia, saía sempre com fome. Sim, por esse 13 tempo o velho meu já tinha morrido de uma dor que lhe deu, bem aqui no vazio – lá nele. Minha 14 mãe foi lavar roupa na casa duma gente rica, e eu tive que ir trabalhar à distância de dez léguas, 15 num açude do governo. Porque me esqueci de dizer que era seca brava, nesse ano em que meu 16 pai morreu. Aí a velha também deu pra ficar doente – era uma dor, era um cansaço, uma falta 17 de fôlego – com pouco foi-se embora também, dizia ela que pra junto do finado e dos dez anjos 18 que tinha no céu. Isso ela falava quando já estava variando, a bem dizer de vela na mão. E eu, 19 acabou-se o serviço do açude, houve um inverninho escasso, me encostei nuns tios, trabalhando 20 com eles. Mas sempre com esta minha sorte esquisita, quando dei fé morreu o tio, a família se 21 espalhou, a viúva minha tia foi morar com o genro. Desta vez fiquei só no mundo. Me meti com 22 uns tangerinos, levando gado do Quixeramobim para a cidade. Trabalho ingrato, porque com 23 esses anos ruins o gado não engorda nem bota força, cai à toa, é raro se chegar com o lote de 24 reses inteiro. Sempre morre um bocado em caminho. Com vinte e dois anos, fiquei noivo de uma 25 moça. E lá vem a sorte de sempre. Quero dizer...” [...] Mas não digo à senhora que minha sina 26 é de sempre acabar só? Minha mulher morreu, mas era uma moça boa, trabalhadeira, me fez 27 muita falta, que eu lhe tinha amizade e ela a mim. Continuei uns tempos na estrada e por duas 28 vezes escapei de morrer de desastre; primeiro foi um trole que virou com todos os meus 29 companheiros, justamente no dia que eu tinha faltado ao serviço. Depois um trem doido que 30 apareceu fora do horário, pegou a turma toda num corte de linha, escapamos por milagre, com 31 as costas enterradas na barreira e os carros passando, tirando fogo no peito da gente. Chegou 32 50, 51, cada vez pior, trabalho acabou-se, a necessidade atacou todo mundo, acabei resolvendo 33 me chegar para cá, arrumei o dinheiro da passagem e embarquei num pau-de-arara desses. A 34 senhora não viu falar num caminhão que virou na serra, com quarenta e seis pessoas dentro? 35 Pois eu vinha nele. Saiu gente ferida, uns morreram, outros aleijaram – mas eu escapei sem 36 quebrar uma unha que fosse.” (Deu a gargalhada clara e feliz.) “Não é uma sorte engraçada? 37 Acho que a pessoa mais feliz do que eu, neste mundo não há. Agora trabalho numa pedreira; lido 38 com dinamite, que é objeto perigoso danado. Os outros todos têm medo, menos eu. Sei que se 39 aquele diabo estourar de mau jeito, pode pegar os companheiros, a mim não pega. Não é corpo 40 fechado, não é reza, nunca fui homem de usar patuá; é sorte mesmo, sorte feliz. Dizia finada 41 minha mãe que era o anjo-da-guarda; quando eu era menino talvez fosse; mas hoje em dia, Deus 42 que me perdoe se for pecado, não acredito que o anjo-da-guarda fosse andar atrás dum bicho 43 feio e ruim que nem eu... E hoje estou por aqui, rolando... Por ora me dou bem, neste Rio de 44 Janeiro. Casar não me caso mais, nem mesmo sigo moda de ajuntar, que aqui se usa muito. Gosto 45 duma moça, mas falar a verdade, tenho medo... com essa sorte que eu tenho... A gente afinal de 46 contas não gosta de ver os outros morrer... mormente se tem amizade, não é mesmo, dona? Deixa 47 a pobrezinha continua vivendo...” 1
Fundamentados no texto de Rachel de Queiroz, “História Alegre” (página 1) o título é um exemplo de qual figura de linguagem?
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.


