Língua PortuguesaPonto final, reticências, interrogação e exclamaçãoMarinha 2022
Marinha
Questão de Língua Portuguesa
Medo da Eternidade Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade. Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas. Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou: - Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira. - Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa. - Não acaba nunca, e pronto. - Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que represen_tava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-deresa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo ·impossível do qual já começara a me dar conta. - Com delicadeza, terminei afinal pondo o chiei~ na boca. - E agora que é que eu faço? - Perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver. · ·· · · - Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa ·a mastigar. E ai mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários. · - Perder a eternidade? Nunca. O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa·, enc,a'ininháv~mbnos para a escola. · · · ·· · - Acabou-se o docinho. E agora? - Agora mastigue para sempre. · . · . ·: Assustei-me não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em br~ve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada_. Mastigava, mastigava. Mas me sentia ·contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da ideia de eternidade ou de infinito. Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso. Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim. LJSPECTOR, Clarice. Disponível em: <https://claricelispector.blogspot.com/2009/04/medo-daeternidade.html - acesso em 18-11-21>cesso em 18 nov 2021.
No trecho'."- Olha só o que me aconteceu!" (18°§), o ponto de exclamação foi usado para:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.


