Língua PortuguesaOperadores argumentativosCOPEVE UFMG 2013
UFMG
Questão de Língua Portuguesa
Texto 1 Autoviolência A palavra automóvel, uma viatura com mobilidade própria, pode ser enganosa. Tem autonomia de potência, mas não tem, pelo menos até hoje, autonomia de condução. Quem conduz um automóvel é uma consciência. O que talvez seja mais reflexivo nesse prefixo (auto) seja justamente a característica maior da consciência: tudo que por ela é gerido regressa a ela mesma, num efeito bumerangue, impactando e determinando quem ela é. O carro engana fazendo parecer que é uma entidade independente, detentora de uma placa própria, quando sua identidade sou eu e meu nome. Descobrimos isso quando a multa vem personalizada, momento de susto e de breve recusa em assumir-se a autoria. O carro faz parecer que existia outro personagem que não o próprio condutor. Porém a lataria não pode ocultar o personagem e o Renavam não pode esconder a habilitação. O insulfilm não tem como mascarar o rosto e o deslocamento não tem como deixar para trás o que foi feito. Porque fechar outro carro é como empurrar alguém no meio da rua. Porque buzinar é como chegar e gritar no ouvido do outro. Porque acelerar em direção a um pedestre é como levantar a mão em ameaça ao próximo. Porque estacionar trancando o outro é produzir um cárcere privado. Porque ultrapassar perigosamente é como sair armado. Porque matar no trânsito, não nos enganemos, para a consciência que conhece as nossas imprudências, é sempre doloso, sempre com a intenção de matar. O auto de automóvel nos engana a todos e a maioria é pior como motorista do que como cidadão. Tem mais pecados registrados nas fiscalizações eletrônicas, e mais ainda quando elas não estão por perto, do que na vida de pedestre. Sinal de que no carro somos outra pessoa, mais perigosa. Sinal de que nossa consciência assume que tem menos responsabilidade dentro do que fora dessa entidade. O condutor é uma consciência e uma consciência é um bicho vestido. As sensações de anonimato e de que o pequeno espaço de nossa carroceria é privado fazem o bicho se despir como ele não faz do lado de fora. E o que vemos pela cidade são respeitáveis senhores e senhoras como bichos atrelados a um volante. Dão vazão a violências que fora, vestidos, não dariam. Além das agressões e abusos que produzem, saem dos seus carros piores pessoas diante de suas próprias consciências. Seguem a rotina como se nada tivesse acontecido, mas trouxeram para dentro de sua casa, de sua alma, marcas de pneus. Certa vez, um rabino estava numa carroça quando começou a subida de uma ladeira. Ele não hesitou em saltar da carroça e se pôs a andar ao lado do cavalo. O cocheiro questionou sua atitude, ao que ele explicou que na subida ficava difícil para o animal. O cocheiro reagiu: “Mas é apenas um animal... Então o senhor, um ser humano, é quem tem que fazer força e ficar cansado?”. O rabino respondeu: “Justamente por isso, como sou um ser humano, não quero me ver no futuro num litígio com um cavalo!”. O condutor é aquele que enxerga as interações e cuida não só para fazer o seu percurso, mas também para não se ver no futuro em litígios com animais, seja na vida real ou em sua própria consciência. BONDER, Nilton. Autoviolência. Folha de S. Paulo, 14 abr. 2013, A3. Opinião. QUESTÃO 01 O objetivo principal deste texto é A) destacar a relação entre as pessoas e suas irresponsabilidades. B) profetizar acerca do que ocorrerá num mundo feito para carros. C) realçar a mudança de comportamento do homem ao volante. D) analisar os atos das pessoas como condutoras de automóveis. CONCURSO PÚBLICO UFMG/2013 PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA/LEGISLAÇÃO 3 QUESTÃO 02 Os trechos a seguir expressam uma opinião do autor, EXCETO: A) “O carro engana fazendo independente”. parecer que é uma entidade B) “O cocheiro questionou sua atitude, ao que ele explicou que na subida ficava difícil para o animal.” C) “O condutor é uma consciência e uma consciência é um bicho vestido.” D) “Sinal de que nossa consciência assume que tem menos responsabilidade dentro do que fora dessa entidade.” QUESTÃO 03 Assinale a alternativa na qual a palavra destacada estabelece a mesma relação sintática expressa no seguinte trecho: O carro faz parecer que existia outro personagem que não o próprio condutor. A) “O carro engana fazendo independente.” parecer que é uma entidade B) “Sinal de que no carro somos outra pessoa, mais perigosa.” C) (...) “e o deslocamento não tem como deixar para trás o que foi feito.” D) “As sensações de anonimato e de que o pequeno espaço de nossa carroceria é privado” (...)
CONCURSO PÚBLICO UFMG/2013 PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA/LEGISLAÇÃO 7
O autor usa os seguintes recursos para produzir o texto, EXCETO.
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

