Língua PortuguesaInterpretação de textosFGR 2011
Pref Itatiaiuçu
Questão de Língua Portuguesa
Meus netos afirmavam que eu nascera avô, só porque as crianças nascem crianças. Desde suas primeiras recordações, impressionou-os meu jeito de labareda ao vento no andar, sem falar nestes cabelos contados e sem cor ou no rosto trincado que ainda me assusta no espelho. Para eles, fui avô a vida inteira. Nada mais errado. A gente nasce criança, cresce e volta a ser criança. Começamos e acabamos do mesmo jeito. Daí a afinidade entre avôs e netos: vivemos a mesma idade. Custei a convencê-los de que minha infância duraria mais. Eles logo entrariam na adolescência, enquanto eu, bem. . . eu ficaria criança para sempre. Desde que o mundo é mundo, este círculo se repete. Talvez, por isso me repita tanto nas minhas falas, imitando a própria vida. Meus netos também se enganavam num outro aspecto: achavam que eu não duraria muito, isto é, andava de namoro firme com o cemitério. Sentia seus olhares de “até nunca mais” a cada despedida de fim de férias, olhares carinhosos de uma saudade, mas tristes. Custei, também a convencê-los de que nos veríamos ainda por muito tempo, e eles partiriam antes de mim. Em breve, apenas eu continuaria menino. Eu, o bom velhinho. Descobri minha segunda infância faz pouco. Uma alegria enorme em reconhecê-la! Alertado sobre sua existência aos doze anos, não me dei ao trabalho de acreditar. Ouvira um aviso meio místico, cheirando a invenção da cabeça da gente, coisa de pouco crédito. Ao chegarem os filhos de meus filhos, a história me ocorreu de supetão, clarinha, clarinha como se tivesse acontecido ontem. Daí pra frente, quanto mais afastada a lembrança, maior sua clareza. Acontecimentos que julgava definitivamente esquecidos remontavam-me com suas cores, odores e sons. Voltavam todos dos primeiros anos, revestidos do impacto da descoberta. Vinham gravados numa mente ávida por impressões, semi deserta ainda, na qual um canto de um pássaro ou a visão de um sol na tempestade provocava mais prazer do que qualquer sorvete. Contentava-me então com muito pouco: bastava-me o mundo. . . Daí a preferência pela infância para ancorar-me na velhice. Segurava o mundo nas mãos. Cada manhã oferecia concertos para os sentidos. GIFFONI, LUIS. OS PÁSSAROS SÃO ETERNOS. BELOHORIZONTE, FORMATO, 1988. P. 13_15 3
Para os netos, “o avô já nascera avô.” são justificativas, segundo o texto; EXCETO:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.
