Língua PortuguesaFinalidade do texto e intenção do autorDECORP 2026
Pref Tarauacá
Questão de Língua Portuguesa
O mito do “multitarefa”: a mente em 15 abas e a sensação de não concluir nada Eu descobri que minha mente não é um cérebro. É um navegador. E eu sou o tipo de pessoa que abre abas como quem coleciona possibilidades: com entusiasmo, sem critério e com a esperança ingênua de que “depois eu volto”. Começa sempre com uma intenção nobre. Vou responder um e-mail. Abro o computador, encaro a caixa de entrada e penso: “Agora vai”. Aí vejo uma mensagem pedindo um arquivo. Preciso achar o arquivo. Abro a pasta. Não lembro onde salvei. Pesquiso pelo nome. Aparecem três versões: “final”, “final mesmo” e “final agora vai”. Abro as três, para comparar. Três abas mentais. No meio disso, lembro que tenho que pagar uma conta. Abro o app do banco. Ele pede senha, biometria, confirmação por SMS e, se pudesse, pediria uma redação sobre responsabilidade financeira. Enquanto espero o código, olho uma notificação: “Você tem 24 mensagens não lidas”. Eu não tenho 24 mensagens. Eu tenho 24 pequenas urgências em formato de balão. Eu volto para o e-mail. Escrevo “Olá, tudo bem?”. Pauso. Porque aparece a dúvida existencial do multitarefa: eu ponho vírgula depois do “Olá”? Eu estou sendo formal demais? Releio. De repente, estou revisando o tom, a pontuação e o sentido da vida. Aí eu lembro do café. Vou até a cozinha. No caminho, vejo a pia. A pia olha para mim como um lembrete de que eu tenho um lar e um passado. Eu lavo uma xícara “rapidinho”. Só que “rapidinho” é uma palavra mentirosa. Quando vejo, estou lavando mais três coisas, organizando a esponja e pensando que talvez eu devesse comprar uma plantinha, porque adultos compram plantinhas para se sentirem equilibrados. Volto para o computador com o café. Sento. Abro a aba errada. Estou lendo sobre plantas. Como cheguei aqui? Ah, sim: a plantinha. O algoritmo, sempre gentil, me oferece “10 plantas que sobrevivem a quem esquece de regar”. Eu me sinto visto. Fecho. Ou tento fechar. Porque surge um pop-up: “Você tem certeza que deseja sair?”. O computador tem mais cuidado comigo do que eu mesmo. Abro o documento do arquivo “final”. Percebo um erro. Vou corrigir. Mas antes, preciso confirmar um dado. Abro uma busca rápida. A busca rápida vira um buraco. Em dois cliques, estou lendo uma discussão de 2017 entre desconhecidos com opiniões fortes e pouca pontuação. Eu nem concordo com ninguém, mas sigo lendo, como se fosse importante para a minha carreira. Meu celular vibra. Mensagem. Eu respondo. Enquanto respondo, alguém manda áudio. Eu ouço no 1,5x, porque eu sou multitarefa e moderno. O áudio fala de um assunto que exige resposta cuidadosa. Eu penso “vou responder depois”. Só que “depois” é a prateleira onde eu guardo tudo o que eu não quero lidar agora. Essa prateleira está lotada. Em algum momento, eu olho para o alto da tela: 15 abas abertas. Quinze. Algumas são úteis. Outras são lembranças de decisões interrompidas. Uma delas é uma música que eu nem dei play. Ela está ali apenas para me julgar em silêncio. O mito do multitarefa é que ele parece eficiência. Na prática, ele é uma forma elegante de fragmentar a atenção. Você faz um pouco de tudo e termina com a sensação de não ter feito nada. É como cozinhar 15 pratos ao mesmo tempo e, no fim, comer biscoito em pé. No final do dia, eu fecho o notebook e sinto uma vitória estranha: não resolvi tudo, mas sobrevivi ao meu próprio navegador mental. E penso que talvez a solução não seja fazer mais coisas. Talvez seja fechar abas. Uma de cada vez. E, principalmente, aceitar que foco não é uma virtude mística. É só uma escolha repetida. Com teimosia. E com menos “rapidinhos”. Fonte: Banca Examinadora
A organização do texto em sequências curtas (“Abro… Pauso… Volto… Fecho…”) contribui para o sentido global porque
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.


