Questões de Língua Portuguesa · COPS UFLA

Língua PortuguesaFinalidade do texto e intenção do autorCOPS UFLA 2019

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Questão de Língua Portuguesa

1 Acordei há alguns dias com quatro coisas na cabeça: queria desejar feliz aniversário a uma amiga, não podia 2 esquecer de pagar uma conta, precisava consultar a bula de um remédio e assistir a um trecho de um documentário 3 antes de dar uma aula. Menos de uma hora depois, todas as tarefas estavam cumpridas. E eu ainda estava na cama. 4 O milagre se chama internet. 5 Não há dúvida de que a rede revolucionou a nossa forma de fazer quase tudo, da busca por informações à 6 maneira como nos relacionamos uns com os outros. Mas há indícios de que o impacto dela nas nossas vidas seja 7 bem maior do que esse. 8 Pesquisadores de nove universidades, entre elas as respeitadas Oxford e Harvard, decidiram avaliar o que já 9 se sabe com alguma consistência acerca do impacto da internet sobre nossa cognição — o processo de aquisição, 10 armazenamento e interpretação dos estímulos e das informações. 11 A conclusão é, no mínimo, um alerta: a rede parece estar mudando a estrutura anatômica e o 12 funcionamento do nosso cérebro. E isso estaria acontecendo, principalmente, nas regiões associadas à atenção, à 13 memória e às habilidades sociais. 14 As primeiras pistas sobre essas mudanças, segundo a análise recém-publicada, surgiram há uma década. Em 15 2009, uma pesquisa da Universidade de Stanford contrariou as expectativas e mostrou que estudantes que faziam 16 uso excessivo da internet e nela realizavam diversas atividades ao mesmo tempo tinham desempenho pior ao 17 realizar múltiplas tarefas no mundo real do que jovens com poucas horas de navegação. A “prática extra”, portanto, 18 não se converte na habilidade de resolver sucessivos desafios que exijam atenção sustentada. E uma análise mais 19 detalhada desses achados sugere que isso se dá porque os internautas convictos são mais suscetíveis à distração por 20 estímulos ambientais irrelevantes. 21 Cinco anos depois a mesma Stanford, junto com a Universidade de Boston, trouxe uma possível explicação 22 para a desatenção que parece afetar o grupo que não sai da internet: eles fazem muitas coisas, mas não se fixam a 23 nada. O tempo médio para que pulem de uma página para outra é de míseros 19 segundos. E 75% do conteúdo 24 exibido fica menos de um minuto na tela. 25 Nos anos seguintes, comparações entre resultados de exames de ressonância magnética funcional 26 mostraram que pessoas que declaram usar a rede “sempre” ou “na maioria do tempo” têm menos massa cinzenta 27 nas regiões do cérebro associadas ao foco, à persistência e à manutenção de metas. Ao mesmo tempo, essas 28 pessoas, diante de um estímulo capaz de distraí-las, ativavam muito mais essas regiões cerebrais atrofiadas - o que 29 pode ser traduzido como um esforço adicional para tentar manter a atenção. 30 Estamos perdendo o foco e também a memória. É como se a facilidade de acesso às informações tivesse nos 31 libertado da necessidade de armazená-las. 32 Um estudo experimental feito com 50 voluntários constatou, inicialmente, o óbvio: aqueles que usam a 33 internet localizam as informações mais rapidamente do que os que recorrem às enciclopédias impressas. Horas 34 depois da busca, porém, os internautas têm mais dificuldade de se lembrar do que pesquisaram. 35 A explicação, mais uma vez, aparece nos estudos de imagem feitos no cérebro desses voluntários enquanto 36 eles faziam uso dos livros ou dos sites de busca. Os exames mostram que a coleta de informações online, embora 37 mais rápida, não recruta na mesma intensidade as regiões cerebrais responsáveis por armazenar informações a 38 longo prazo. 39 Não, não! Não desligue o computador, o mundo está online! E a tecnologia digital já é parte irreversível da 40 vida. A internet facilita todos os dias nossa busca por informações, agiliza nossas compras, aumenta nossas 41 possibilidades de lazer e até faz cruzar a nossa tela, quando a gente menos espera, a foto daquele amigo querido. O 42 problema, definitivamente, não é a internet. É o uso que fazemos dela. Paracelso já dizia, lá no século 16, que a 43 diferença entre o remédio e o veneno é apenas a dose. 44 Esta coluna, aliás, só existe aqui, na internet. 1 Sílvia Corrêa Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/silviacorrea/2019/07/como-a-internet-pode-estar-transformando-nosso- cerebro.shtml Página Acesso em: 3/9/2019

Ao utilizar o adágio atribuído a Paracelso: “A diferença entre o remédio e o veneno é apenas a dose.” (linhas 42- 43), a articulista busca:

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