Questões de Língua Portuguesa · COPERVE UFSC

Língua PortuguesaComposiçãoCOPERVE UFSC 2014

UFSC

Questão de Língua Portuguesa

Texto 3 O viajante clandestino – Não é arvião. Diz-se: avião. Mia Couto 02 O menino estranhou a emenda de sua mãe. Não mencionava ele uma criatura do ar? A criança 03 tem a vantagem de estrear o mundo, iniciando outro matrimônio entre as coisas e os nomes. Outros a elas se assemelham, à vida sempre recém-chegando. São os homens em estado de poesia, essa infância autorizada pelo brilho da palavra. 06 – Mãe: avioneta é a neta do avião? – Vamos para a sala de espera, ordenou a mãe. 08 Ela lhe admoestou, prescrevendo juízo. Aquilo era um aeroporto, lugar de respeito. A senhora 09 apontou os passageiros, seus ares graves, soturnos. O menino mediu-se com aquele luto, aceitando os deveres do seu tamanho. Depois, se desenrolou do colo materno, fez sua a sua mão e foi à 11 vidraça. Espreitou os imponentes ruídos, alertou a mãe para um qualquer espanto. Mas a sua voz se 12 afogou no tropel dos motores. Eu assistia a criança. Procurava naquele aprendiz de criatura a ingenuidade que nos autoriza a 14 sermos estranhos num mundo que nos estranha. Frágeis onde a mentira credencia os fortes. Seria aquele menino a fratura por onde, naquela toda frieza, espreitava a humanidade? No aeroporto eu me salvava da angústia através de um exemplar da infância. 17 O menino agora contemplava as traseiras do céu, seguindo as fumagens, lentas pegadas dos 18 instantâneos aviões. Ele então se fingiu um aeroplano, braços estendidos em asas. Descolava do chão, o mundo sendo seu enorme brinquedo. E viajava por seus infinitos, roçando as malas e as pernas dos passageiros entediados. Até que a mãe debitou suas ordens. Ele que recolhesse a 21 fantasia, aquele lugar era pertença exclusiva dos adultos. – Te ajeita. Estamos quase partindo. 23 – Então vou me despedir do passaporteiro. 24 A mãe corrigiu em dupla dose. Primeiro, não ia a nenhuma parte. Segundo, não se chamava assim ao senhor dos passaportes. Mas só no presente o menino se deixava calar. Porque, em seu 26 sonho, mais adiante, ele se proclama: 27 – Quando for grande quero ser passaporteiro. E ele já se antefruía, de farda, dentro do vidro. Ele é que autorizava a subida aos céus. 29 – Vou estudar para migraceiro. – Tá doido, filho. Fica quieto. O garoto guardou seus jogos, contido. Que criança, neste mundo, tem vocação para adulto? 32 Saímos da sala para o avião. Chuviscava. O menino seguia seus passos quando, na lisura do 33 asfalto, ele viu o sapo. Encharcado, o bicho saltiritava. Sua boca, maior que o corpo, traduzia o espanto das diferenças. Que fazia ali aquele representante dos primórdios, naquele lugar de futuros apressados? 36 O menino parou, observador, cuidando os perigos do batráquio. Na imensa incompreensão do asfalto, o bicho seria esmagado por cega e certeira roda. 38 – Mãe, eu posso levar o sapo? 39 A senhora estremeceu de horror. Olhou envergonhada, pedindo desculpas aos passantes. Então, começou a disputa. A senhora obrigava o braço do filho, os dois se teimavam. Venceu a 41 secular maternidade. O menino, murcho como acento circunflexo, subiu as escadas, ocupou seu 42 lugar, ajeitou o cinto. Do meu assento eu podia ver a tristeza desembrulhando líquidas miçangas no seu rosto. Fiz- 44 lhe sinal, ele me encarou de soslado. Então, em seu rosto se acendeu a mais grata bandeira de felicidade. Porque do côncavo de minhas mãos espreitou o focinho do mais clandestino de todos os passageiros. Disponível em: <http://jardimdasdelicias.blogs.sapo.pt/277137.html>. [Adaptado] Acesso em: 8 abr. 2014.

Figura da questão (imagem do caderno de prova)

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Com base no Texto 3, assinale a alternativa CORRETA.

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