Língua PortuguesaInferências, pressupostos e subentendidosCCP IFRN 2007
IF RN
Questão de Língua Portuguesa
Genialidade brasileira Alcântara Machado 1. Confusão. Sempre confusão. Espírito crítico de antologia universal. Lado a lado todas as épocas, 2. todas as escolas, todos os matizes. Tudo embrulhado. Tudo errado. E tudo bom. Tudo ótimo. Tudo genial. 3. Olhem a mania nacional de classificar palavreado de literatura. Tem adjetivos sonoros? É literatura. 4. Os períodos rolam bonito? Literatura. O final é pomposo? Literatura, nem se discute. Tem asneiras? Tem. 5. Muitas? Santo Deus. Mas são grandiloqüentes? Se são. Pois então é literatura e da melhor. Quer dizer 6. alguma cousa? Nada. Rima, porém? Rima. Logo é literatura. 7. O Brasil é o único país de existência geograficamente provada em que não ser literato é 8. inferioridade. Toda gente se sente no dever indeclinável de fazer literatura. Ao menos uma vez ao ano e 9. para gosto doméstico. E toda gente pensa que fazer literatura é falar ou escrever bonito. Bonito entre nós às 10. vezes quer dizer difícil. Às vezes tolo. Quase sempre eloqüente. 11. O cavalheiro que encerra a sua oração com um Na antiga Roma ou como disse Barroso Na célebre 12. batalha é orador. Orador, só? Não. Orador de gênio. O cavalheiro que termina o seu soneto com um Ó sol! 13. É raio! Ó luz! Ó nume! Ó astro! É poeta. Também genial. E assim por diante. 14. Só a gente se agarrando com Nossa Senhora da Aparecida. 15. Essa falsa noção da genialidade brasileira é a mesma do Brasil, primeiro país no mundo. Não há 16. cidadão perdido em São Luiz do Paraitinga ou São João do Rio do Peixe que não esteja convencido disso. 17. E porque o Brasil é o campeão do universo e o brasileiro o batuta da terra, tudo quanto aqui nasce e existe 18. há de ser forçosamente o que há de melhor neste mundo de Cristo e de nós também. Todos os adjetivos 19. arrebatados e apoteóticos são poucos para tamanha grandeza e tamanha lindeza. Ninguém pode conosco. 20. Nós somos os cueras mesmo. 21. Qualquer coisinha assume aos nossos olhos de mestiços tropicais proporções magnificentes, 22. assustadoras, insuperáveis, nunca vistas. O Brasil é o mundo. O resto é bobagem. Castro Alves bate Vítor 23. Hugo na curva. O problema da circulação em São Paulo absorve todas as atenções estudiosas. Sem nós a 24. Sociedade das Nações dá em droga. Vocês vão ver. Wagner é canja para Carlos Gomes. Em Berlim como 25. em Sydney, em Leningrado como em Nagasaki só temos admiradores invejosos. O universo inteiro nos 26. contempla. Êta nós! 27. É por isso que seria excelente de vez em quando uma cartinha como aquela de Remy de Gourmont 28. a Figueiredo Pimentel. Um pouco de água gelada nesta fervura auriverde. Para que o trouxa brasileiro caia 29. na realidade. E deixe-se dessa história de gênio, grandeza, importância e riquezas incomparáveis que é 30. bobagem. 31. E não é verdade. (In: As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de janeiro: Objetiva, 2007)
O período “Só a gente se agarrando com Nossa Senhora da Aparecida” revela que
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

